ISSN 0365-4508
ARQUIVOS DO MUSEU NACIONAL
Nunquam aliud natura, aliud sapienta dicit Juvenal, 14, 321 In silvis academi quoerere rerum, Quamquam Socraticis madet sermonibus Ladisl. Netto, ex Hor
VOL.LXVI
RIO DE JANEIRO
Abril/Junho 2008
ARrQuivOs DO MUSEU NACIONAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO REITOR Aloísio Teixeira
Museu NacIONAL DIRETOR Sérgio Alex K. Azevedo
EDITORES Miguel Angel Monné Barrios, Ulisses Caramaschi
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Philippe Taquet Museum National d'Histoire Naturelle - França
Rosana Moreira da Rocha Universidade Federal do Paraná
Suzanne K. Fish University of Arizona - EUA
W. Ronald Heyer Smithsonian Institution - EUA
ARQUIVOS DO MUSEU NACIONAL
VOLUME 66
NÚMERO 2
ABRIL/JUNHO 2008
RIO DE JANEIRO
Arquivos do Museu Nacional, mais antigo periódico científico do Brasil (1876), é uma publicação trimestral (março, junho, setembro e dezembro), com tiragem de 1000 exemplares, editada pelo Museu Nacional/ Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem por finalidade publicar artigos científicos inéditos nas áreas de Antropologia, Arqueologia, Botânica, Geologia, Paleontologia e Zoologia. Está indexado nas seguintes bases de dados bibliográficos: Biological Abstracts, ISI - Thomson Scientific, Ulrich's International Periodicals Directory, Zoological Record, NISC Colorado e Periodica.
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ISSN 0365-4508
Arquivos do Museu Nacional, the oldest Brazilian scientific publication (1876), is issued every three months (March, June, September and December). It is edited by Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, with a circulation of 1000 copies. Its purpose is the edition of unpublished scientific articles in the areas of Anthropology, Archaeology, Botany, Geology, Paleontology and Zoology. I is indexed in the following bases of bibliographical data: Biological Abstracts, ISI - Thomson Scientific, Ulrich's International Periodicals Directory, Zoological Record, NISC Colorado and Periodica.
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(QCNPq
E onselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
Arquivos do Museu Nacional - vol.1 (1876) - Rio de Janeiro: Museu Nacional.
Trimestral
Até o v.59, 2001, periodicidade irregular
ISSN 0365-4508
1. Ciências Naturais - Periódicos. I. Museu Nacional
(Brasil).
CDD 500.1
Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008 ISSN 0365-4508
DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO NO PERÍODO DE 4000 A 2000 ANOS ANTES DO PRESENTE :
(Com 5 figuras)
MARIA CRISTINA TENÓRIO ? DIOGO DE CERQUEIRA PINTO º MARISA COUTINHO AFONSO *
RESUMO: Colocam-se em discussão os resultados obtidos no desenvolvimento do projeto “Dinâmica de ocupação, contatos e trocas no litoral do Rio de Janeiro no período de 4000 a 2000 anos antes do presente”, em desenvolvimento no litoral sul (Ilha Grande) e sudeste (Arraial do Cabo) daquele estado. O foco do projeto é a delimitação das unidades culturais, a reconstituição da mobilidade, da dinâmica de ocupação e dos sistemas de trocas existentes no litoral. Os resultados obtidos permitiram que fosse proposto que os grupos que ocuparam a Ilha Grande eram exímios canoeiros e que mantiveram extensa rede de trocas. Nas pesquisas desenvolvidas posteriormente no município de Arraial do Cabo, a cerca de 280km pela linha da costa, foi possível identificar elementos na cultura material que permitiram propor a hipótese de contatos e trocas entre os grupos que ocuparam as áreas estudadas.
Palavras-chave: Arqueologia. Sambaqui. Pescadores. Identidade. Trocas.
ABSTRACT: Dynamics of occupation, contacts, and exchanges at the coast of the State of Rio de Janeiro from 4.000 to 2.000 years before present.
We discuss the results obtained through the project “Dynamics of occupation, contacts and exchanges at the coast of the State of Rio de Janeiro from 4.000 to 2.000 years before present”, held at the southern (Ilha Grande) and southeastern (Arraial do Cabo) coast of that state. The project aims the delimitation of cultural units and also to reconstitute the mobility, dynamics of occupation, and exchange systems that existed at the coast. The results allowed the interpretation that the groups that occupied Ilha Grande, besides being excellent canoeists, kept an extense network of exchanges. Further researches held at the Arraial do Cabo, 280km away by the coastline, allowed the identification of elements in the material culture that provide
support that contact and exchanges existed between the groups that occupied the studied areas.
Key words: Archaeology. Shellmound. Fishermen. Idendity. Exchanges.
INTRODUÇÃO
Partindo dos resultados obtidos nos 15 anos de pesquisas desenvolvidas na Ilha Grande, litoral sul do Rio de Janeiro, foi possível propor a existência de intensa rede de trocas sendo desenvolvida no litoral a cerca de 3.000 anos antes do presente (TENÓRIO, 2003). Foi também possível propor a existência de locais onde ocorriam eventos que envolviam grande concentração de pessoas, onde provavelmente eram realizadas trocas e rituais.
! Submetido em 17 de abril de 2006. Aceito em 28 de março de 2008.
Como elemento da cultura material utilizado como instrumento estruturador da pesquisa, foram utilizados os amoladores polidores fixos encontrados no litoral brasileiro e com alta concentração na Ilha Grande. Embora ocorram em vários pontos do litoral brasileiro, estão concentrados no litoral sul do Estado do Rio de Janeiro e na Ilha de Florianópolis. As similaridades encontradas nesses conjuntos permitiram que se trabalhasse com a hipótese de que foram deixados por grupos que compartilhavam uma importante característica cultural (Tenório, 20083).
? Museu Nacional/UFRJ. Cientista do Nosso Estado/FAPERJ. Departamento de Antropologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de
Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: ctenorio(ydomain.com.br
* Museu Nacional/UFR, Departamento de Antropologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail:
falecomdiogo(Dhotmail.com.
* Museu de Arqueologia e Etnologia - MAE/USP. Av. Professor Almeida Prado, 1466, Cidade Universitária, 05508-900, São Paulo, SP, Brasil. E-mail:
Marisa(Mbr2001.com.br.
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A presença de amoladores polidores fixos no município de Arraial do Cabo, no litoral sudoeste do Estado do Rio de Janeiro, próximos ao sítio Ponta da Cabeça (Tenório et al, 1992), que é contemporâneo ao sítio Ilhote do Leste, permite que seja levantada a hipótese da existência de intenso contato e transmissão cultural no litoral deste estado.
(Os AMOLADORES POLIDORES FIXOS
Os amoladores polidores fixos (Fig.1l) são testemunhos arqueológicos constituídos por conjuntos de rochas que apresentam sulcos resultantes da ação de polir peças líticas. São encontrados em ilhas, em antigas ilhas isoladas por períodos de transgressão marinha e em pontas; estão quase sempre localizados próximos a cursos d'água doce que desembocam nas praias. São encontrados no Estado de Santa Catarina, na Ilha de Florianópolis e em ilhas adjacentes, conforme referido por TiBurTIUS & BIGARELLA (1953), RoHR (1950/1959/1961/1977/1984), Beck (1971), FossarI et al. (1987/1988/1989), AmaraL (1995); na ponta das Laranjeiras, por RUTHSCHILLING & ScHmirz (1990). No Estado de São Paulo, na Ilha
Comprida, por UcHôa (1978/79/80); em Picinguaba e na Ilha de Couves, por Amenomoni (com. pes.); no Estado do Rio de Janeiro, na Ilha Grande, por MacnaniInI (1982), Gaspar & TENÓRIO (1990) e Tenório (1992); na Ilha de Marambaia, por MENEZES et al. (1999) e KngiP & OLIVEIRA (2001); no promontório de Cabo Frio, por Dias Jr. (1959); na ponta de Arraial do Cabo, por Tenório (1999). No Estado da Bahia, foi registrado na Ilha de Cajaíba, por CaLDERON (1969/1974).
A partir dos resultados obtidos em experimentações (Tenório, 2003), estima-se que, para a formação da totalidade dos sulcos que constituem os amoladores polidores fixos encontrados na Ilha Grande, seria necessária a elaboração de pelo menos 278.952 lâminas de machado. Este número foi alcançado após a realização de experimentações que tiveram por objetivo obter uma estimativa do desgaste provocado na rocha suporte na fabricação de uma lâmina de machado semelhante às encontradas no sítio Ilhote do Leste. Constatou-se que, após serem polidos e afiados os gumes de 11 lâminas elaboradas a partir de seixos, provocou-se um desgaste de apenas 0,155cm no bloco de rocha.
Fig.1- Amoladores-polidores fixos. (Foto: Maria Cristina Tenório). Escala = 20cm.
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DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 313
Como a profundidade média dos 1.154 sulcos existentes na ilha, excluídos os que se encontram atualmente submersos ou enterrados na praia, é de 2,5cm, o resultado final foi o número de lâminas descrito anteriormente. A disparidade entre o número de sulcos e o de lâminas encontradas permitiu que fosse elaborada a hipótese de que poderiam ter sido trocadas por outros itens, o que teria permitido a existência de um sistema de trocas no litoral do Rio de Janeiro há pelo menos 3000 anos antes do presente.
Nas escavações do sítio Ilhote do Leste, também localizado na Ilha Grande, foi possível observar, através da reconstituição do processo de formação de suas camadas ocupacionais, uma diferenciação clara entre centro e periferia indicando que as camadas na parte central do sítio teriam se formado mais rapidamente, sugerindo ter havido, neste local, eventos que envolveram concentração de número muito maior de pessoas do que a população habitual estimada para o sítio.
Sírio ILHOTE DO LESTE
O sítio Ilhote do Leste está localizado à meia encosta de um morrote do mesmo nome, situado na parte meridional da Ilha Grande, na área delimitada pela Reserva Biológica Praia do Sul (Fig.2). Esse morrote divide as praias do Sul e do Leste. Sua ocupação se deu inicialmente sobre dois “platôs”, estando o mais baixo localizado a 13m e o mais alto a 20m de altura em relação ao nível do mar atual, e ambos situados na parte anterior do morrote. Sua área é de 440m?, tendo sido escavados 15% de sua área total.
O sítio está localizado ao lado de um canal por
onde escoam as águas de duas lagoas interligadas e no centro de cinco ecossistemas: restinga, manguezal, laguna, mata de encosta e o litoral rochoso. As datações e dados obtidos indicam que o início da formação do sítio deve ser contemporâneo ao da restinga externa e das lagoas do Sul e do Leste, formadas há cerca de 3.000 anos (AmaDOR, 1987/88), devido a um movimento regressivo do mar.
O sítio tem a forma de um semiciírculo. O material arqueológico ocorre predominantemente na área central, entre grandes blocos de pedra e na borda do morro. Suas camadas ocupacionais acompanham o declive do morro; são mais espessas nos bordos, sugerindo que o refugo foi empurrado morro abaixo. Na parte plana, as camadas malacológicas apresentam montículos, indicando que as valvas de moluscos, quando não eram empurradas, eram amontoadas. O material arqueológico está concentrado no meio do sítio; apenas o material lítico lascado predomina na área periférica.
O centro do sítio, onde ocorre maior concentração de material, apresenta fogueiras cercadas por seixos que devem ter sido mantidas acesas por dezenas de anos.
É à volta do Ilhote do Leste que está a maior concentração de amoladores-polidores fixos encontrada na Ilha Grande. Eles também estão no costão rochoso que o cerca, indicando que foram feitos numa época em que o mar estava mais baixo, quando a barra dos canais de drenagem ficava mais a frente. As lâminas de machado encontradas no sítio, sempre associadas aos enterramentos, comprovam a relação dos habitantes do sítio com os amoladores polidores fixos (Fig.3).
Fig.2- Sítio Ilhote do Leste. (Foto: Turisrio).
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Fig.3- Enterramento com lâmina de machado. (Foto: Maria Dulce Gaspar).
COMPARAÇÃO CENTRO E PERIFERIA
Comparando-se os perfis com os setores, observa- se que as camadas malacológicas aparecem mais nitidamente na beira da encosta, dissipando-se à medida que se segue para dentro dos platôs, voltando a se concentrar em bolsões. Constata-se a existência de uma camada-matriz, caracterizada pela presença de material esparso, interrompida por camadas finas de osso triturado, por fogueiras de longa duração, por bolsões de material ósseo e malacológico, ou por concentrações de restos malacológicos. Isto permite supor que se trate de uma ocupação constante de toda a área do sítio, com a preocupação em manter, durante muito tempo, áreas limpas e fogueiras sempre acesas nos mesmos locais.
As datações obtidas revelam que as camadas foram construídas muito rapidamente. A camada óssea teria se formado em cerca de 100 anos. A diferença de datas entre a amostra coletada debaixo do piso de argila e a retirada do meio da camada de conchas também é de cerca de 150 anos (Fig.4).
A variação observada na morfologia das camadas sugere a ocupação diferenciada no centro e na periferia do sítio. No centro, as camadas são mais espessas e apresentam grandes fogueiras que permaneceram acesas por grandes períodos de
tempo. Na periferia, as camadas são mais finas e apresentam pequenas fogueiras e montes de restos alimentares. A presença de refugos maiores no centro e pequenos na periferia dos montes sugere que estes resultaram da acumulação de dejetos varridos com a intenção de manter áreas limpas, provavelmente relacionadas a unidades domésticas. A presença de um piso com buracos de estaca também pode indicar a intenção da manutenção de áreas limpas ou de espaços especiais.
Áreas estéreis contendo apenas objetos minúsculos, como dentes de cação ou outros adornos, foram interpretadas, segundo proposta de ScHirrER (1996), como fundos de cabana. Em uma dessas áreas foram encontrados dois enterramentos, que apresentaram o maior número de acompanhamento funerário.
Foram encontrados 30 sepultamentos com 33 esqueletos. Apenas dois são de crianças, mas chama a atenção o grande número de indivíduos com mais de 30 anos.
Foi constatada grande variabilidade no padrão de enterramentos; no entanto, foi observada a repetição de alguns elementos, tais como: o sedimento limpo cercando os membros superiores, a posição fletida, a presença de restos de alimentos sobre eles, a associação com fogueiras, com lâminas de machado,
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DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 315
2910 + 90
2650 + 350
3060 + 40
Camada de ossos esparsos Camada malacológica Conchas fragmentadas Concreção
Camada óssea
Concha e osso
Fogueiras
Terra preta
Fig.4- Morfologia das camadas no centro e na periferia do sítio e datações obtidas.
com pedras próximas ao crânio, com as ossadas de mamíferos marinhos e a presença de adornos, como os colares de dentes perfurados de cação, felídeo, canídeo e golfinho. Uma hipótese para explicar a variedade no padrão de enterramento é que o sítio Hhote do Leste foi construído por indivíduos com laços de consangúinidade unidos por casamentos a outros indivíduos pertencentes a vários grupos.
A cerca de 1500m de praia foi localizado um outro sítio denominado Ponta do Leste.
Sírio PonTA DO LESTE
O sítio Ponta do Leste está localizado sobre uma duna de três metros, ao lado de um leito seco de rio, no extremo sul da Praia do Leste.
A única parte preservada do sítio é a parcela da duna cortada pela ação do mar que expôs um perfil, deixando à mostra um enterramento em ótimo estado de preservação. O indivíduo encontrado pertence ao sexo masculino, com mais de 35 anos de idade e 1,60m de estatura. Sua estrutura é menos robusta do que a dos esqueletos encontrados no sítio Ilhote
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do Leste e também apresenta patologias ósseas.
As datações obtidas (2880+40 anos AP) e a localização dos amoladores-polidores fixos nos costões relacionados aos sítios Ilhote do Leste e Ponta do Leste indicam contemporaneidade.
O enterramento do indivíduo fora do sítio reforça a hipótese de que a grande variabilidade encontrada nos acompanhamentos e na deposição do morto se deve à presença de indivíduos que carregavam consigo resquícios de diferentes rituais relacionados a sua identidade cultural, o que indica a existência de elementos de diferentes grupos compartilhando o mesmo espaço, provavelmente através de laços matrimoniais. A grande variabilidade de artefatos encontrados no Ilhote do Leste pode sugerir também intenso contato com outros grupos da costa.
A alta incidência de guapuvuru, madeira utilizada para fazer canoas, na Ilha Grande, as lâminas de machado, adicionadas à presença de peixes de águas mais profundas, como os elasmobrânquios de grande porte, e também as inserções musculares apresentadas nos esqueletos encontrados reforçam a hipótese da existência de pequenas embarcações
316 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO
e de que esses grupos teriam predileção pela ocupação de ilhas, fato alicerçado na localização dos amoladores-polidores fixos.
Apoiado no que foi apresentado, parte-se do princípio de que o sítio Ilhote do Leste foi construído por pescadores, caçadores, coletores, exímios canoeiros que tinham alta mobilidade na costa, com maior fixação na Ilha Grande; não constituíam um grupo grande, mas o fato de elaborarem lâminas de machado lhes oferecia um status especial, que, provavelmente, os incentivava a contatar e realizar trocas com outros grupos que habitavam o litoral do Estado do Rio de Janeiro.
No Estado do Rio de Janeiro, os amoladores polidores fixos aparecem em dois pontos distantes cerca de 280km de litoral: na baía da Ilha Grande e em Arraial do Cabo.
ARRAIAL DO CABO
A região tem a forma de uma pequena peninsula e é cercada por um cordão de 30km de praias arenosas, tendo ao centro um complexo rochoso denominado Morro do Atalaia. Apresenta também formações lacustres, destacando-se a Lagoa de Araruama, onde predominam exuberantes dunas e vegetação própria das restingas (GurceL, 1992). Apresenta um conjunto arqueológico notável por sua concentração no espaço e pela diversidade dos locais escolhidos para os assentamentos. Foram identificados 21 sítios, sendo que: cinco estão localizados sobre dunas em praias de mar aberto: Sítios Ponta da Cabeça, Colônia de Pesca, Massambaba I, Massambaba II, Massambaba III; três estão em elevações superiores a 50m acima do nível do mar: Sítio do Condomínio da Atalaia, Boqueirão e Usiminas; dois em ilha, sendo que, um sobre dunas e um em elevação superior a 50m: Sítio da Ilha de Cabo Frio e Usiminas (já citado também como sítio localizado acima de 50m); quatro, em abrigos em alturas entre cinco e 20m: Abrigo do Boqueirão, Abrigo sob rocha do Atalaia, Abrigo da Praia dos Anjos, Abrigo da Praia do Forno; cinco localizados em pequenas enseadas: Praia dos Anjos, Praia do Forno Ie II, Praia do Pontal e Prainha; e três conjuntos de amoladores-polidores fixos: Amolador do Diogo, Praia Grande le II.
Os sítios pesquisados apresentam datas que variam de 4200 a 1200 anos AP (ver Tab.1). Desses, apenas os sítios Usiminas e Ponta da Cabeça apresentam período de ocupação concomitante com a ocupação do Ihote do Leste; no entanto, apenas o sítio Ponta
da Cabeça apresenta evidências tais como lâminas de machado e pontas ósseas elaboradas a partir de espinho de cocoroca (Haemulidae) que permitem propor que os construtores desse sítio seriam os responsáveis pelos amoladores polidores fixos encontrados na praia de Massambaba e que teriam tido contato com os habitantes da Ilha Grande.
Sírio PONTA DA CABEÇA
O sítio Ponta da Cabeça está localizado no canto esquerdo da Praia Grande (Massambaba), no topo do morro do Itirinho a 20m de altura, segundo as coordenadas UTM 23 k 0804434 Le 7456368 N. Atualmente, encontra-se totalmente destruído pela ação antrópica. O que restava do sítio foi pesquisado no ano de 1991 (Tenório et al., 1992), através de um trabalho de salvamento apoiado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
A ocupação do sítio se deu inicialmente no topo do morro, estendendo-se posteriormente sobre uma duna escalonar consolidada e colada ao complexo rochoso (Tenório et al, 2005).
Segundo os resultados de pesquisas recentes coordenadas pelo Prof. João Wagner de Alencar Castro (com.pes., fev. 2006), a restinga externa ainda não havia fechado na época no início da ocupação do sítio, o que daria ao local uma configuração insular.
O sítio, na sua parte mais densa apresenta três camadas de ocupação que totalizam 1,70m de camada arqueológica. A primeira camada é menos densa que as posteriores e é constituída por pequenas fogueiras acesas em reentrâncias do terreno, contendo lascas de quartzo, artefatos ósseos e restos de moluscos; está datada em 3270+70 anos AP.
Na segunda camada de ocupação, as fogueiras são maiores e formam uma continua camada escura de 40cm de espessura, contendo restos de peixes e moluscos, lascas de quartzo e pontas elaboradas em osso. Nessa camada também foi encontrado o enterramento de uma criança de seis anos, sepultada em decúbito lateral esquerdo. Se houve contato desses grupos com os construtores do Ilhote do Leste, este teria se dado nesse momento, do final da segunda para a terceira camada de ocupação, um momento de aumento da população do sítio. É também neste momento que ocorre maior atenção para o consumo de moluscos, pois até então os grupos responsáveis pela construção do sítio eram quase que essencialmente pescadores.
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DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 317
TABELA 1. Datações relativas aos sítios trabalhados.
SÍTIO DATAÇÃO TRADICIONAL DATAÇÃO CALIBRADA NÍVEL Nº DO LABORATÓRIO Ponta da Cabeça 2080+40 AP 2107 a 1884 AP 70-80cm Gif-110441 3270+70 AP 3610 a 3335 AP 160-170cm Beta-84332 Condomínio do Atalaia 1690+90 AP 1815 a 1375 AP 40-50cm Beta - 84333 4190+130 AP 5035 a 4405 AP 90-100cm Beta - 95597 4120+110 AP 4865 a 4350 AP 80-90cm Beta - 95559 Ilhote do Leste 2650+350 AP 3095 a 2320 AP 100-110cm Beta - 84808 2830+50 AP 3070 a 2800 AP 80-100cm Beta - 147283 2910+90 AP 3323 a 2852 AP 90-100cm GIF - 8991 3060+40 AP 3360 a 3160 AP 130-140cm Beta - 147284 Ponta do Leste 2880+40 AP 3140 a 2880 AP 150cm Beta - 148615 Usiminas 1503431 AP 3470 a 3340 AP 40-50cm “14 CHONO Centre*2 1533+31 AP 45-50cm “14 CHONO Centre* 3180+40 AP 130-140cm Beta -205960
Ilha de Cabo Frio 1630+100 AP
2210432 AP
Boqueirão 1623+32 AP
1720 a 1300 AP 130-140cm
Beta - 205960 80-90cm “14 CHONO Centre*
20-30cm “14 CHONO Centre*
1 Datação fornecida por Rita Scheel-Ybert. 2 * Datações fornecidas por Rodolfo Ângulo.
O início da terceira camada está datado em 2080+40 anos AP (ScHEEL-YBERT, 1998), quando a ocupação teria sido mais intensa, resultando em adensamento da camada arqueológica.
Os moluscos mais consumidos foram a Astraea sp., a Olivancillaria sp., o Thaumasthus sp., O Megalobulimus sp. e a Pinctata sp., que passa a predominar nos níveis superiores. Da pesca, destacam-se a enxova (Pomatomidae) e o sargo-de- dente (Sparidae), mas também foram encontrados muitos animais de grande porte, como cações (Lamidae, Carcharhinidae), raias (Dasyatidae) e mamíferos marinhos. O consumo de peixes também aumentou consideravelmente no início do terceiro momento de ocupação. Também foram consumidos ouriços (Echinodermata) e vegetais, estes representados por coquinhos calcinados. Como instrumentos, foram identificados seixos percutores, raspadores, lâminas de machado, além de lascas de quartzo hialino de excelente qualidade.
A indústria óssea está representada por grande quantidade de pontas, dentes perfurados, vértebras trabalhadas e por espátulas. Como matéria-prima para a elaboração das pontas foram preferidos os mamíferos, seguidos das raias e finalmente das aves.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008
São também encontradas valvas de moluscos apresentando desgaste por uso, trabalhadas e também carapaças perfuradas.
A quarta camada indica um momento de declínio da ocupação; de coloração mais clara, apresenta bolsões de restos malacológicos e são encontrados cinco fragmentos cerâmicos sem decoração, não identificados.
DISCUSSÃO
O padrão de assentamento verificado na Ilha Grande e em Arraial do Cabo apresenta pontos em comum e também elementos divergentes. Como traços compartilhados, observam-se: a presença de sítios localizados em morros e morrotes associados a sítios sobre duna; a proximidade com lagunas e mar aberto; a ênfase na pesca; a introdução tardia da coleta de moluscos e a exploração intensa de espécies malacológicas que, nos sítios que apresentam espessas camadas malacológicas, são coletados apenas como segunda opção.
O molusco mais coletado no sítio Ilhote do Leste foi a Lucina pectinata (Gmelin, 1791) (44%), bivalve que apresenta grande quantidade de carne e que,
318 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO
provavelmente, teria sido um dos alimentos de maior previsibilidade; no entanto, o consumo de moluscos teve de ser complementado por Iphigenia brasiliana (Lamarck, 1808) e Tagelus plebeius (Ligthfoot, 1788), bivalves de pequeno porte encontrados num canal que corre do lado do sítio. Já nos sítios de Arraial do Cabo, há o predomínio da Astraea sp., gastrópode coletado no costão que não apresenta grande quantidade de carne, seguido de Taumasthus sp. e Megalobulimus sp., gastrópodes terrestres pouco presentes em sítios litorâneos que apresentam espessas camadas malacológicas.
Em relação aos rituais funerários, existem também pontos convergentes nas ocupações da Ilha Grande e de Arraial do Cabo, tais como a presença de enterramentos associados a grandes blocos de pedra, a diversidade das posições e das orientações em que o morto era depositado; a presença de grande variedade de acompanhamentos funerários; o gesto de acender fogueiras com alimentos em volta do morto; e, em relação às ocupações nas dunas, o ato de colocar grande quantidade de ocre a ponto de tingir de vermelho a areia que circunda os membros superiores do indivíduo e a deposição do morto em covas.
Como pontos divergentes nos padrões de assentamentos das áreas estudadas, observa-se que na Ilha Grande as ocupações são mais compactas, enquanto em Arraial do Cabo são mais espalhadas; na Ilha Grande, a ocupação sobre morrote é mais intensa e nas dunas é muito menor, enquanto que em Arraial do Cabo ocorre o inverso, sendo mais intensa nas dunas; Arraial do Cabo apresenta sítios em grandes elevações, em locais acima de 50m, o que não ocorre na Ilha Grande. Arraial do Cabo apresenta clima seco com baixa precipitação anual, já a llha Grande apresenta alto índice pluviométrico. Na Ilha Grande, é muito alto o número de conjuntos de amoladores polidores fixos (42 conjuntos), enquanto que em Arraial do Cabo só existem três conjuntos.
Em relação às divergências presentes nos rituais funerários, em Arraial do Cabo não foram encontradas lâminas de machados associadas a enterramentos, fato recorrente na Ilha Grande.
No entanto, no tocante a pontos específicos, comparando-se a cultura material encontrada nos sítios Ilhote do Leste (Ilha Grande) e Ponta da Cabeça (Arraial do Cabo), cnama a atenção, além da proximidade dos amoladores polidores fixos, a presença dos artefatos mais característicos da Ilha Grande no sítio Ponta da Cabeça, tais como as lâminas de machado e as pontas elaboradas a partir
de espinho de cocoroca.
As pontas elaboradas a partir de espinhos de cocoroca constituem o artefato de maior visibilidade do sítio Ilhote do Leste, com cerca de 90% das pontas localizadas nesse sítio, onde foram encontrados 2480 exemplares divididos em 10 tipos (Tenório & PintO, 2006). Em Arraial do Cabo, apenas no sítio Ponta da Cabeça, foram encontrados quatro exemplares deste artefato (Tenório & Pinto, 2006).
Outra observação importante é que, a partir de algum momento próximo a 2830+50 anos AP, espécies malacológicas predominantes no sítio Ponta da Cabeça tais como, Olivancilaria auricularia (Lamarck, 1810) e a Astraea sp. passam a aparecer em pouca quantidade no sítio Ilhote do Leste. Além dos moluscos, dois artefatos característicos do sítio Ponta da Cabeça também foram percebidos no sítio Hhote do Leste, como as quatro espátulas em osso que serviam com acompanhamento num enterramento e a presença de duas pontas elaboradas a partir de esporão de raia.
Além das similaridades pontuais apontadas, constata-se que as formas dos amoladores polidores fixos encontrados em Arraial do Cabo não diferem das encontradas na Ilha Grande (Fig.5).
CONCLUSÃO
Na discussão apresentada pode-se observar que evidências de contatos e trocas são dificeis de serem identificadas no estudo da cultura material, mas podem ser percebidas nos elementos destoantes e de ocorrência sutil (Tenório, 2006a,b), os quais foram observados na abordagem dos pontos específicos.
Elementos destoantes são itens que se destacam na cultura material de cada sítio, seja por uma grande distorção quantitativa, seja por sua associação a rituais que evidenciam uma importância simbólica para o grupo. Assim sendo, considerando a distribuição de elementos destoantes nas duas áreas estudadas pode-se concluir que o fato de que tivessem sido encontradas quatro pontas elaboradas a partir de espinhos de cocoroca no sítio Ponta da Cabeça, elemento destoante no sítio Ilhote do Leste, associado ao fato de que artefatos destoantes do sítio Ponta da Cabeça tivessem sido também encontrados em pequena quantidade, no mesmo momento, no sítio Ilhote do Leste, pode ser interpretado como evidência da presença de contato e de transmissão tecnológica. A introdução no Ilhote
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DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 319
do Leste do consumo de novas espécies malacológicas, consumidas no Ponta da Cabeça, e a presença dos amoladores polidores fixos nas duas áreas estudadas também corroboram a hipótese.
Embora se leve em consideração a diferença da amostragem, pois só foi escavada uma área de 1%
no sítio Ponta da Cabeça, enquanto foi escavada 15% da área total do sítio Ilhote do Leste, os dados apresentados constituem fortes indicadores de contato entre os ocupantes da Ilha Grande e de Arraial do Cabo em determinado momento de sua ocupação pré-colonial.
Fig.5- Sulcos encontrados na Praia de Massambaba (a) e em Lopes Mendes (b). (Fotos: Maria Cristina Tenório).
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320 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO
As semelhanças e divergências verificadas em Arraial do Cabo e na Ilha Grande indicam que estas áreas foram ocupadas por grupos que compartilhavam muitos traços culturais, mas que também apresentavam elementos diferenciadores regionais, conforme modelo proposto por Tenório (2006b). Segundo este modelo, teria existido no litoral brasileiro uma cultura sambaquiana muito antiga formada por grupos marítimos, caracterizados por possuírem um profundo conhecimento de técnicas necessárias à exploração do meio aquático marinho. À essa cultura eram constantemente agregados novos costumes trazidos por grupos que alcançavam a costa, oriundos do interior. Apesar deste intenso contato, essa cultura não perdeu sua supremacia até a chegada dos ceramistas, pois detinha o conhecimento tecnológico necessário à exploração marítima e também porque possuía uma cosmologia bem estruturada, constantemente reforçada em rituais que envolviam contatos e trocas realizados em eventos com concentração de pessoas.
AGRADECIMENTOS
As pesquisas em Arraial do Cabo contaram com o apoio da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPg) e também fizeram parte das atividades de pós- doutorado desenvolvido no Museu de Arqueologia e Etnologia - MAE /USP.
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Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 ISSN 0365-4508
EUPHORBIACEAE NATIVAS DE CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSE, MINAS GERAIS, BRASIL: (Com 13 figuras)
DEBORA MEDEIROS * LUCI DE SENNA VALLE º RUY JOSE VALKA ALVES º
RESUMO: A Área de Proteção Ambiental Serra de São José (21º03-07'S, 44º06-13'W) tem como vegetação predominante os campos rupestres. O trabalho de campo no período de 2001/02 registrou a ocorrência de 10 espécies subordinadas a três gêneros de Euphorbiaceae: Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.) Croizat, Croton antisyphiliticus Mart., C. arlineae D.Medeiros, Senna & Alves, C. campestris A.St.-Hil., C. floribundus Spreng., €. gnidiaceus Baill., C. timandroides (Didr.) Múll. Arg., C. urucurana Baill., C. vestitus Spreng. e Euphorbia chrysophylla Klotzsch ex Boiss. O táxon Croton seção Medea (Klotzsch) Baill. sensu Webster foi o mais expressivo em número de espécies e espécimes: C. arlineae, C. gnidiaceus, C. timandroides e C. vestitus. Euphorbia chrysophylla mostrou-se escassa, restrita a afloramentos rochosos, geralmente associados a córregos temporários. A análise comparativa do indumento foliar de Croton L. através da microscopia eletrônica de varredura (MEV) mostrou que apenas C. urucurana e C. floribundus apresentam dois tipos morfologicamente diferentes de tricomas conforme a superfície adaxial ou abaxial. O tipo simples só ocorre adaxialmente, com nítidas gradações na redução dos raios distais, que provavelmente resultam da transição do tricoma estrelado para o tipo simples (estado derivado). As demais espécies apresentam apenas o tipo estrelado com pequenas variações morfológicas. Apresentam- se chave analítica para identificação, descrições, dados complementares de fenologia, distribuição geográfica, habitat e ilustrações de cada táxon, também classificados em Categorias de Conservação de acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN/2001).
Palavras-chave: Campo rupestre. Euphorbiaceae. Florística. Taxonomia.
ABSTRACT: Native Euphorbiaceae of “cerrado” and “campo rupestre” of the São José Range, Minas Gerais, Brazil.
The São José Range (21º03-07'S; 44º06-13'W) is na Environmental Protection Area mostly composed by “campos rupestres”. A year of field work was done and ten species subordinated to three genera were found: Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.) Croizat, Croton antisyphiliticus Mart., C. arlineae D.Medeiros, Senna & Alves, C. campestris A.St.-Hil., C. floribundus Spreng., C. gnidiaceus Baill., C. timandroides (Didr.) Múll. Arg., C. urucurana Baill., C. vestitus Spreng. and Euphorbia chrysophylla Klotzsch ex Boiss. The taxon Croton section Medea (Klotzsch) Baill. sensu Webster was the richest group in number of species and specimens: C. arlineae, C. gnidiaceus, C. timandroides and C. vestitus, the later was the most spread taxon in the area. Euphorbia chrysophylla showed a sparse distribution, restricted to rocky outcrops, generally associated with temporary water courses. Analysis of foliar indument on both surfaces of Croton L. species through scanning electron microscopy (SEM) showed that only C. floribundus and C. urucurana present two distinct morphological types of trichomes depending on the surface. Simple type is restricted to adaxial surface of few species. Several development gradations of stellate type distal rays were observed, probably as a result of the transition from stellate trichome to simple one (derivated state). Identification key, morphological descriptions, illustrations, notes on habitat, geographic distribution, phenological, general comments and classification according to the Red List Categories of the International Union for Nature Conservation (IUCN/2001) of each taxon are provided.
Key words: “Campo rupestre”. Euphorbiaceae. Floristic. Taxonomy.
! Submetido em 26 de maio de 2006. Aceito em 28 de março de 2008. Parte da Dissertação de Mestrado de D.Medeiros, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica), Museu Nacional/UFRJ. 2? Museu Nacional/UFRJ, Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica). Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: debora(Whemisferio.com.br. * Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Botânica. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
324 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
INTRODUÇÃO
Euphorbiaceae Juss. sensu stricto tem distribuição pantropical, principalmente na América e na África, com 334 gêneros (RapcLirre-SmrrH, 2001) e cerca de 6300 espécies (GovaErRrTS et al., 2000), com todos os tipos de hábito (exceto epífitas) e em todos os tipos de vegetação. É uma das famílias mais expressivas na flora brasileira, tanto em nível genérico quanto específico. Apesar do recente incremento na pesquisa multidisciplinar sobre a família, Secco (2001) destacou a importância da resolução de problemas taxonômicos que ainda dificultam a compreensão de muitos gêneros.
Euphorbia L. e Croton L. constituem os maiores gêneros da família, com cerca de 2000 e 800 espécies respectivamente (RADCLIFFE-SMITH, 2001). Chamaesyce S.F Gray compreende-cerca de 250 espécies cosmopolitas (GovaErTS et al., 2000) e sua história taxonômica esteve constantemente associada à delimitação do gênero Euphorbia.
Croton possui uma classificação infragenérica controversa. Atualmente aceita-se a sinopse realizada por WEBSTER (1993), na qual o autor reconhece 40 seções para o gênero. Um dos caracteres considerados como relevantes para esta classificação é o tipo de indumento, uma vez que a variação morfológica do tricoma é útil na delimitação de seções e espécies.
A Serra de São José é uma Área de Proteção Ambiental localizada no sul de Minas Gerais (21º03-07'S, 44º06-13'W), entre os municípios de São João del Rei e Tiradentes (Fig.1), numa região de transição entre os cerrados do Brasil Central e florestas semideciduas das regiões Sudeste e Sul do país, onde o relevo acidentado e grandes altitudes promovem grandes variações ambientais (OLIVEIRA FILHO & FLUMINGHAM FILHO, 1999). Os campos rupestres representam o principal tipo de vegetação, ocorrendo disjuntamente associados a afloramentos rochosos (ALves, 1992), predominando sobre matas de cerrado e de galeria. A Serra estende-se no sentido leste-oeste por cerca de 15km de extensão e 2km de so largura. As altitudes variam entre 900 e 1430m. Os afloramentos rochosos na
maioria são compostos por quartzito e o tipo de solo predominante é o cambissolo álico de textura arenosa (OLIVEIRA-FiLHO & MAcHADO, 1993). O clima regional é do tipo Cwa, clima continental com inverno seco (KórPrEN, 1948). A temperatura média anual é de 18ºC e as temperaturas absolutas oscilam muito. A ampla variação climática no ciclo de 24h constitui um fator de estresse para as espécies, mesmo para aquelas que se adaptaram à vida em superfícies rochosas expostas a altas temperaturas. As famílias mais numerosas no cerrado e nos campos rupestres da Serra de São José são nesta ordem: Orchidaceae, Asteraceae, Poaceae, Melastomataceae e
Cyperaceae (ALves, 1992).
as ao
Fig.1- Mapa do Brasil indicando a área de estudo.
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EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 325
Como parte do projeto “Vegetação Rupestre e Montana Neotropical do Museu Nacional/UFRJ” (SID/UFRJ 370104P065-8), este trabalho teve por objetivos levantar qualitativamente as espécies nativas de Euphorbiaceae ocorrentes em cerrado e campo rupestre; ampliar o conhecimento morfológico e taxonômico da família; analisar a distribuição geográfica dos táxons e fornecer dados ecológicos complementares.
MATERIAL E MÉTODOS
Realizou-se um levantamento bibliográfico dos trabalhos existentes sobre a família Euphorbiaceae, principalmente sobre os gêneros Chamaesyce, Croton e Euphorbia. O material examinado foi coletado na Serra de São José no período de 2001-02, herborizado segundo as técnicas comuns utilizadas em trabalhos taxonômicos e depositado no Herbário do Museu Nacional (R). Examinaram-se fototipos pertencentes aos Herbários R e RB.
A terminologia botânica está de acordo com Fonr Quer (1989) e WEBERLING (1989). A morfologia da folha seguiu Rizzini (1977) e o padrão de nervação, Hickey (1979). A abreviação dos nomes seguiu Brummir & PowEeL (1992); a das obras princeps, STAFLEU & Cowan (1973-1988) e a dos periódicos, LAWRENCE et al. (1968).
As fotografias do indumento foliar das espécies de Croton foram obtidas através de microscopia eletrônica de varredura (MEV). As coletas foram particularmente preparadas visando ao tratamento específico para MEV: em campo, as lâminas foliares (submersas em água numa placa de Petri) foram cortadas em fragmentos com nervura central e margem. Foram então preservadas em álcool 70º GL, e gradualmente desidratadas em série etílica, sendo submetidas ao ponto crítico e metalização com ouro.
Para a análise morfológica do indumento utilizou- se a classificação proposta por WEBSTER et al. (1996), em que são reconhecidos sete tipos básicos de tricomas: estrelado, com os raios compondo um único ciclo num mesmo plano; fasciculado, com raios em mais de um plano; rosulado ou multiradiado, que assemelha-se ao fasciculado, porém com um número maior de raios (mais de 8); dendrítico, com raios inseridos em diferentes níveis ao longo de um eixo principal
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vertical; lepidoto, semelhante a uma escama devido à total fusão entre os raios; papilado e glandular.
As descrições morfológicas e a chave de identificação foram elaboradas com os dados da análise taxonômica do material coletado. As espécies ruderais encontradas (Chamaesyce prostrata (Ait.) Small, C. hyssopifolia (L.) Small.; Croton glandulosus L., C. lundianus Múll. Arg. não foram tratadas neste trabalho.
Os dados referentes aos nomes populares, à distribuição geográfica e ao habitat das espécies foram obtidos a partir das etiquetas do material dos herbários: BHCB, ESAL, FCAB, GUASTE; HXBHS GUPRA By RB, «SPpecSPE (HoLMGREN et al., 1990).
RESULTADOS E DISCUSSÃO Euphorbiaceae Juss., Gen. Pl. 384. 1789.
Árvores, arbustos, subarbustos, ervas ou lianas; monóicas ou dióicas, suculentas ou não, geralmente latescentes ou resinosas. Folhas simples ou compostas, alternas, raramente opostas ou verticiladas; limbo inteiro ou dividido em lobos ou segmentos, tri a quinquefolioladas. Estípulas livres, diminutas a bem desenvolvidas, glandulares ou não. Nectários extraflorais geralmente presentes nas folhas e nas brácteas. Indumento, simples, tricomas uni ou pluricelulares, unisseriados, ou ramificados (estrelados ou lepidotos); ou espécies totalmente glabras. Inflorescências em racemos, glomérulos, ciátios, tirsos, axilares ou terminais; ou flores solitárias; brácteas glandulares ou não. Flores unissexuadas, actinomorfas, com ou sem vestígio do sexo atrofiado, di ou monoclamídeas. Disco nectarifero geralmente presente, segmentado ou inteiro. Androceu com poucos a muitos estames: filetes curtos ou longos, livres ou concrescidos; anteras bitecas, rimosas, introrsas ou extrorsas; grãos de pólen na maioria tricolporados. Gineceu tricarpelar (1 a múltiplos): ovário livre; 3 estiletes livres ou parcialmente concrescidos, inteiros, bífidos, multipartidos, lobados ou laciniados no ápice. Frutos capsulares, tricocas, deiscentes ou não. Sementes globosas, ovóides a angulosas, carunculadas ou não.
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D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
CHAVE PARA AS ESPÉCIES
1. Inflorescências em racemos 2. Hábito arbóreo
3. Glândulas (2-5) na base do limbo; indumento rosulado; flores pistiladas junto às estaminadas ao ONO dE tGLESCENCIAL coeso trt ecalria Ser ea SE ndreeç a qa e pena E Dl ca go sele ado eta Croton urucurana
3”. Glândulas ausentes na base do limbo; indumento estrelado-lepidoto; flores pistiladas na base e estaminadas na-parte-supérior da raque «e ms ecunenpr saga rqu ara Cocina acc dare regeneraas Croton floribundus
2º. Hábito subarbustivo ou arbustivo
+ Cuandulas Ausentes no mb cegencepar aqui aceMs ros Rana en acre gens e ais aeee teresa di Croton campestris
4º. Glândulas presentes no limbo
5. Glândulas na face abaxial, na base e margem do limbo ........................ Croton antisyphiliticus
5”. Glândulas ausentes na face abaxial e presentes na margem do limbo
6. Presença de pétalas bem desenvolvidas na flor pistilada .................cccicicsicits Croton gnidiaceus
6”. Pétalas reduzidas na flor pistilada
ER VSTO TALE TEECRELLE OS 422008 bater gls dl se enipçi d , d D i S D j Croton arlineae
7º. Presença de indumento estrelado
8. Limbo com margem revoluta; estípulas glanduloso-laciniadas alongadas (1,7-2mm) multipartidas de poa E ic EE a GRE SE oo a E UR CR 4 E OA pp E E pa a ira d Croton vestitus
8”. Limbo com margem plana; estípulas glanduloso-laciniadas, 3-5 partidas (0,7-1,0mm) digitadas EPI SR RU CASA PONTA VU PO ELSA CONT ei PU E CNS AS CRIS RR PO ES eae Croton timandroides 1º. Inflorescências em ciátios
9. Folhas alternas, com base simétrica; apêndice petalóide notoriamente ungúiculado, coberto inteiramente por nectário extrafloral na superfície adaxial ................. Euphorbia chrysophylla
9”. Folhas opostas junto à inflorescência, com base assimétrica; apêndice petalóide oval com nectário
extrafloral na base da superficie adaxial .............
1. Chamaesyce S.F.Gray
1.1 Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.) Croizat, J. of the Arnold Arbor. 24:187. 1943 (Fig.2).
Ervas, 6,0-32cm alt., eretas, glabras, latescentes, com xilopódio. Caule filiforme vináceo-avermelhado, áfilo na porção basal. Folhas verticiladas (3-5), opostas junto à inflorescência, uninérveas, membranáceas, linear-lanceoladas, nervura mais proeminente na face abaxial; limbo 1,4 x 0,3cm, base aguda assimétrica, ápice agudo, apiculado, margem inteira, cartilaginosa; pecíolo 0,8-1,2mm compr.; estípulas 1,0Omm x 2,/0mm, triangulares, interpeciolares, fusionadas, fimbriadas no ápice, levemente rugosas. Inflorescências ciátios dispostos em dicásios de pleiocásios terminais em
AS CAS à Se a a pa a Chamaesyce caecorum
diferentes estágios de desenvolvimento, 2,8-3,0mm de diâmetro; pedúnculos 1.0-2,0mm compr.; invólucro campanulado-arredondado, ca. 3,5 x 3,0mm, glabro na parte externa, brácteas involucrais modificadas palmado-divididas, translúcidas na parte interna; lobos triangulares, ciliados, tricomas longos; apêndices 4, petalóides, ovais, alvo-amarelados, 2,0 x 1,0mm; nectários extra-florais pateliformes, na base do apêndice, 0,3 x 1,0mm; brácteas fimbriadas, 3- partidas, 0,5 x 0,3mm, em meio aos lobos do invólucro. Flores estaminadas ca. 15 por ciátio; pedicelo 0,7-1,0Omm compr.; filete 0,3-0,5mm compr.; antera globosa ca. 0,4 x 0,2mm. Flores pistiladas monoclamiídeas; pedicelo 1,8-2,0mm compr.; ovário 1,0-2,0 x 1,0-2,0mm; estiletes bipartidos, curtos;
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estigmas globosos. Frutos cápsulas, 2,0 x 3,0mm, pedicelo ca. 3,)0mm compr. Sementes 83, 2,0 x 1,Omm, testa rugosa, envoltório mucilaginoso.
Nomes populares — “Erva-de-andorinha” (MG, SP); “erva-de-santa-luzia”; “poainha”, “poaia-de-leite” (MT, GO)
Distribuição geográfica e habitat — Na área estudada ocorre em campo rupestre, cerrado e zonas de transição entre estas fitofisionomias. Em outras localidades, há registros em campo rupestre (BA, DF, MG); cerrado e cerrado ralo (SP); campo sujo (GO); campo limpo (MT, GO, PR); campos altos queimados (GO, MG, SP) e locais alterados (DF).
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, Tiradentes, Caminho do Mangue, 14/X1/2000 (f), R. J. V. Alves 6954 & D. Medeiros 08 (R); topo leste da Calçada da Serra, 2'7/II1/2001 (fl), D. Medeiros 16 (R); encosta voltada para nororeste da Calçada da Serra, 27/II1/2001 (fl), D.Medeiros 17 (R); encosta oeste da Calçada da Serra, 2'7 /II1/2001 (fl), D.Medeiros 19 (R); topo da Cachoeira do Bom Despacho, 01/1IX/2001 (fl), L.Bernardo & D.Medeiros 114 (R); subida da trilha da Cachoeira do Bom Despacho, 01/1X/2001 (fl), L.Bernardo & D.Medeiros 115 (R); Calçada da Serra, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 128 (R); topo da Calçada da Serra, 24/X/2001 (fl), D. Medeiros 135 (R); trilha Calçada da Serra-Cachoeira do Mangue, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 141 (R); margem esquerda da cachoeira na trilha Calçada da Serra-Cachoeira do Mangue, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 142 (R); Águas Santas, subida da trilha em direção à Cachoeira do Mangue, 25/X/2001 (fl), D.Medeiros 153 (R); margem da Cachoeira do Mangue, 25/X/2001 (fl, fr), D.Medeiros 155 (R); encosta norte de Águas Santas, 25/X/2001 (fl), D.Medeiros 156 (R); trilha da Cachoeira do Bom Despacho, 21/X1I/2001 (fl), D.Medeiros 178 (R).
Observou-se a floração de alguns indivíduos logo após a ação do fogo e as coletas ocorreram principalmente entre agosto e dezembro, período no qual os espécimes eram mais facilmente visualizados devido à cor amarela dos apêndices petalóides dos ciátios.
Realizaram-se cortes à mão livre do mesofilo de indivíduos preservados em ácool 70ºGL para observação da bainha de clorênquima ao redor das nervuras (anatomia Kranz), o que foi nitidamente constatado.
Esta espécie enquadra-se na categoria “Menor Preocupação” (“Least Concern — LC?) da Red List Categories (2001), elaborada segundo critérios
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estabelecidos pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
2. Croton L.
2.1. Croton antisyphiliticus Mart., Reise Bras. 1:282. 1823 (Fig.3; Fig.12-A, B).
Subarbusto 10,0-30,0cm alt., ereto ou subereto, estrelado-pubescentes, base subterrânea lenhosa. Folhas alternas, subcoriáceas, oblongo- lanceoladas, base e ápice agudos, peninérveas, 2- o glândulas pateliformes na base do limbo e outras espalhadas acompanhando as margens, indumento estrelado, subglabras na face adaxial; limbo 3,0- 10,0 x 1,5-3,0cm, margem irregularmente serreada; pecíolo 0,5-1,0cm compr.; estípulas lineares, 0,3mm compr., tricomas estrelados externamente. Inflorescências em racemos densos, 5,2-11,0cm compr., brácteas florais lineares. Flores estaminadas mais de 20 por inflorescência; brácteas 2,0mm compr.; pedicelo 1,0Omm compr.; sépalas 5, lanceoladas, 2,0 x 1,0mm, tricomas estrelados apenas externamente; pétalas 5, lanceoladas, 1,4 x 0,7/mm, ciliadas; disco de 5 segmentos; estames 10-13; filetes 1,0mm compr., glabros; anteras ovóides, 0,8mm compr. Flores pistiladas 4-16 na base da inflorescência; sésseis; brácteas 3,5mm compr., tricomas estrelados externamente; sépalas 5, ciliadas, 4,0 x 1,0mm, tricomas estrelados apenas externos; disco de 5 segmentos achatados sobre 2/3 basais das sépalas; ovário estrigoso, 2,0mm compr., tricomas 1,5mm compr.; estiletes 2-partidos na base e no ápice. Frutos cápsulas globosas, ca. de 3,0 x 3,0mm, estrigosos. Sementes 3, elípticas, 3,3 x 3,0mm, testa lisa, castanha.
Nomes populares — “Pé-de-perdiz”, “canela-de- perdiz” (MG).
Distribuição geográfica e habitat — Tocantins, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Há registros em campos rupestres (GO, SP, MG); cerrado (MT, GO, MG); cerrado queimado (MG, SP); cerrado-ralo (MG); campo sujo (MT, GO, DF). Na área estudada, é frequente em regiões de cerrado e campos rupestres, principalmente nas áreas da vertente norte, que são mais secas.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, Tiradentes, Cachoeira do Mangue, 14/X1/2000 (fl), R.J.V.Alves 6942 & D.Medeiros 06 (R); Cachoeira do Mangue, 13/X1/2000 (fl, fr), R.J.V.Alves 6941 & D.Medeiros 07 (R); 22/VI/2001, D.Medeiros 683 (R);
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Cachoeira do Bom Despacho, lado esquerdo da represa, 31/VIII/2001 (fl), D.Medeiros 95, 96 (R); Calçada da Serra, 28/IX/2001 (fl), D.Medeiros 97, 99, 100 (R); trilha Calçada da Serra-Cachoeira do Mangue, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 123 (R); Cachoeira do Bom Despacho, 25/X/2001 (fl, fr), D.Medeiros 147, 148, 150(R); Cachoeira do Mangue, 20/X1/2001 (fl, fr), D. Medeiros 162 (R).
Classifica-se na categoria “Menor Preocupação” (“Least Concern — LC?) da Red List Categories (2001) baseada nos critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
2.2. Croton arlineae D.Medeiros, Senna & Alves, Bradea 8(44):299-302. 2002 (Fig.4; Fig.12-C, D).
Subarbusto 0,40-1,0m alt., ereto, ramos paralelos, cilíndricos, dicotômicos, total e permanentemente glabro. Folhas subsésseis, densamente dispostas na parte terminal dos ramos, subcoriáceas, oval- lanceoladas, base aguda, ápice agudo a levemente acuminado, curtamente palmatinérveas, sem glândulas na base, glabérrimas, resinosas, viscosas em ambas as faces; lâmina 0,5-1,5 x 0,3-0,4cm, margem lisa com glândulas inclusas; pecíolo 0,3mm compr., praticamente nulo; estípulas digitadas, 0,5- 0,7mm compr., glanduloso-laciniadas, 3-6 partidas. Inflorescências racemos curtos, com poucas flores, 1,3-2,2ecm compr., com zona nua e estéril distinta entre as flores pistiladas na base e as estaminadas no ápice, glabras; brácteas glanduloso-laciniadas, linear-lanceoladas, unifloras. Flores estaminadas 6-20 por inflorescência, pedicelo 1,0-2,0mm compr.; brácteas 3,0-3,5mm compr.; sépalas 5, oval-lanceoladas, 2,0-3,0 x 1,0-1,5mm, margem glandulosa, ciliada no ápice; pétalas 5, oval- lanceoladas, 1,5-2,1 x 0,7-1,0mm, membranáceas, translúcidas, margem ciliada; disco 5 segmentos truncados, pateliformes; estames 11; filetes 1,0- 2,0mm compr., glabros, marrons; anteras ovóides, 0,5-1,0 x 0,3-0,6mm. Flores pistiladas 1-3 na base da inflorescência, pedicelo 0,7-1,)0mm compr.; brácteas 4,0-4,2mm compr.; sépalas 5, oval- lanceoladas, 5,0-6,0 x 1,5-2,0mm, glândulas na margem e na face externa, dispostas em 3-4 linhas verticais, frequente uma menor que as outras, persistentes; pétalas 5, glanduliformes, alvas, 0,1- 0,4mm compr.; disco 5 segmentos pateliformes opostos às sépalas; ovário globoso, 2,/0mm compr., glanduloso, glabro; estiletes 3-5 partidos, 1/3 basal comum em forma de coluna cilíndrica, persistentes. Frutos cápsulas globosas, 0,4 x 0,4mm. Sementes 3, 2,3-2,5 x 1,8-2,0mm, testa lisa.
Distibuição geográfica e habitat — Minas Gerais, Serra de São José (vertente norte), Cachoeira do Bom Despacho. Rupícola.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, Tiradentes: Cachoeira do Bom Despacho, 27/III/ 2001 (fl), D. Medeiros 31, 32, 33, 34 35 (R); 24/X/ 2001 (fl, fr), D. Medeiros 124, 131 (R); 22/11/2002 (fl), D. Medeiros 187, 188, 189, 190, 191, 192, 198, 194, 195,0196, 197; 198, 199, 200, 201,202; 2058, 204, 205 (R).
Observou-se uma população por cerca de um ano e três meses, quando pôde-se constatar a ocorrência simultânea de indivíduos em diferentes estágios de desenvolvimento da inflorescência ou frutificação. Indivíduos estéreis restringiram-se aos jovens.
Esta espécie apresenta viscosidade intensa e suas folhas são pegajosas, fazendo com que partículas do solo e vestígios de animais (ex.: penas) permaneçam aderidos à sua superficie. Quando recém-herborizados, é possível observar uma substância resinosa de coloração castanha entre ramos, estípulas, folhas e órgãos reprodutivos. Essa viscosidade pode estar associada a dois fatores principais: cutícula espessa e abundância de glândulas que se distribuem amplamente pelos ramos, estípulas, flores (ovário, sépalas, pétalas) e frutos.
As glândulas na margem do limbo foliar são muito discretas e de difícil observação, assim como acontece em C. gnidiaceus e C. timandroides. Elas estão praticamente inclusas na margem, sendo mais facilmente identificadas pela suave depressão do limbo em seu ponto de localização e por pequenas manchas de coloração escura (provavelmente provocadas pela liberação das substâncias de excreção presentes nas glândulas).
A espécie mais próxima de C. arlineae é C. gnidiaceus, da qual diferencia-se pela ausência de indumento, redução das pétalas femininas que são glanduliformes ao invés de flabeliformes, e presença de glândulas nos ramos, nas sépalas (região dorsal) e no ovário. As pétalas glanduliformes possuem uma pequena haste com uma glândula globosa no ápice.
Croton arlineae só foi encontrada em uma parte da serra, na área da Cachoeira do Bom Despacho, situada na vertente norte, que é a mais seca. O posicionamento geográfico pode estar diretamente relacionado ao processo de especiação, pois esta área apresenta mais rochas e escarpas do que as áreas de ocorrência de C. timandroides, C. gnidiaceus e C. vestitus Spreng. É interessante observar que estes
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três táxons não foram encontrados nas proximidades da população estudada de C. arlineae.
De acordo com os dados levantados e expostos anteriormente e os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), estabelecidos na Red List Categories (2001), esta espécie classifica-se como “Criticamente em Perigo” (“Critically Endangered — CR”).
2.3. Croton campestris A.St.-Hil., Pl. Usuel. Bras. T.60. 1827 (Fig.5; Fig.12-E, F).
Arbusto 1,0-1,5m alt., ereto, ramos cilíndricos, indumento denso estrelado. Folhas pecioladas, subcartáceas, oblongo-lanceoladas, base e ápice obtusos, peninérveas, sem glândulas na base, avermelhadas e caducas quando mais velhas, indumento denso estrelado, subglabra na face adaxial; lâmina 2,6-7,7 x 0,9-3,7cm, margem lisa; pecíolo 0,7-1,5cm compr.; estípulas arredondadas, 1,5 x 1,0mm, tomentosas. Inflorescências em racemos, 1,5-8,0cm compr.; brácteas lanceoladas, tricomas estrelados alvos. Flores estaminadas 20- 30 por inflorescência, pedicelo 0,7mm compr.; 2- 3 flores por bráctea de 1,0 x O,ômm, tricomas estrelados só no ápice internamente; sépalas 5, lanceoladas, 2,0 x 1,0mm, tricomas estrelados externos; pétalas 5, lanceoladas, 1,8 x 0,/mm, ungúiculadas, tricomas estrelados no ápice; disco de 5-segmentado; estames 14-17; filetes 1,2mm compr.; anteras 0,ô5mm compr., ovóides. Flores pistiladas sésseis, poucas ou apenas uma na base da inflorescência; brácteas 2,5 x 1,0mm; sépalas 5-6, lanceoladas, 3,0 x 1,0mm, tricomas estrelados externos; pétalas 5, glanduliformes, reduzidas; disco inteiro, coloração alaranjada vistosa; ovário globoso, 2,0 x 2,0mm, tricomas estrelados; estiletes 2-partidos desde a base, 2-3 vezes mais longos que o ovário, ca. 5,2mm compr. cada. Frutos cápsulas globosas, 6,0 x 4,0mm, pilosos. Sementes elípticas, 3-3,5mm X 1,ô5mm, testa escura com manchas claras.
2” [44
Nomes populares — “Velame”, “velame-do-campo” (BA, MG); “velame-de-bode” (BA)
Distribuição geográfica e habitat —- Bahia, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Há registros em campos rupestres (BA, MG), zona de transição campo rupestre-cerrado (GO, MG), zona de transição campo rupestre-caatinga (BA), cerrado (MT, GO, MG), cerrado degradado (SP, MG), transição cerrado-floresta semi- decidual (BA), cerrado-ralo (GO), cerradão (SP), campo
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sujo (MT, MG), campo recém-queimado (DF, MG) e caatinga (BA). Na área estudada ocorre em campos rupestres, em solos areno-pedregosos e afloramentos de rochas quartzíticas.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, Tiradentes, Cachoeira do Mangue, 13/X1/2000 (fl), R.J.V.Alves 6936 & D.Medeiros 01 (R); idem, 13/XI/ 2000 (fl), R.J.V.Alves 6939 & D.Medeiros 04 (R); idem, 13/X1/2000 (fl, fr), R.J.V. Alves & D.Medeiros 05 (R); Cachoeira do Mangue, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 138, 144 (R) topo da formação principal da Serra, extremidade oeste, 277 /II1/2001 (fl), D. Medeiros 11 (R); alto da Cachoeira do Mangue, 27/II1/2001 (fl), D.Medeiros 21 (R); alto da Cachoeira do Mangue, 31/ VIII/2001 (fl), D.Medeiros 105 (R); alto da Cacheira do Mangue, trilha Calçada de Serra-Cachoeira do Mangue, 24/X/2001 (fl, fr), D.Medeiros 119, 120, 121 (R); Calçada da Serra, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 125, 126, 127, 128, 129, 130, 1582 (R).
No levantamento de herbário pôde-se observar ampla variação morfológica do limbo foliar e indumento. As folhas variaram de largo-obovadas (MT, GO, MS, SP) a agudo-lanceoladas (MT, GO, DF, BA, MG), com ápice foliar agudo, levemente acuminado (PE, BA, MG) a obtuso (GO). A margem do limbo apresentou-se inteira (MG) e serrilhado- pontuada (GO, MG, SP). O indumento apresenta- se menos áspero (MT) e mais denso, com pêlos espessos (DF). Lima & Pirani (2003) ressaltaram “a necessidade de estudos deste grupo, uma vez que a existência de indivíduos com caracteres intermediários e a falta de descontinuidades morfológicas impossibilitam a correta determinação da espécie”. Na área estudada, os indivíduos coletados apresentaram caracteres constantes dentro de um mesmo padrão morfológico, não ocorrendo a variabilidade observada nas exsicatas e coletas de outras localidades. Observou-se que este padrão constante das espécies da Serra de São José é idêntico ao representado na estampa que acompanha o protólogo de Saint-Hilaire (1827). As quatro variedades estabelecidas inicialmente por Baillon (1864) foram organizadas em seis, e mais tarde em cinco por Múller-Argoviensis (1866, 1873). Em todos estes tratamentos recebidos, os principais critérios utilizados na distinção entre as variedades foram o limbo foliar (dimensão e a forma) e o indumento (tipo e coloração). Na última classificação infraespecífica realizada, a de Múller- Argoviensis (1873), os indivíduos aqui estudados se enquadram na variedade C. campestris genuinus Múll. Arg., ou seja, são representantes da espécie
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propriamente dita. Atualmente, a denominação mais adequada é C. campestris A.St.-Hil. var. campestris.
Entre as espécies de Croton arbustivas da Serra, C. campestris é a que apresenta as inflorescências mais vistosas, perfumadas, com estiletes mais longos que os das demais, e a que desenvolve maior estatura (até 1,80m). As flores pistiladas possuem pétalas diminutas, globosas, glanduliformes, glabras e alvas, quase imperceptíveis, junto ao disco na base do ovário. Porém, observou-se um indivíduo com uma das pétalas desenvolvida, alongada, com cerca de metade do comprimento da sépala, o que provavelmente representa um estágio intermediário no processo de redução das pétalas. Constatou-se a presença de látex incolor durante o corte de ramos. Há registro de presença de xilopódio em indivíduo coletado em Mato Grosso.
Apesar de amplamente distribuída no Brasil, principalmente em Minas Gerais, não foram encontradas grandes populações de Croton campestris na Serra de São José. Foram coletados indivíduos isolados ou em pequenos grupos, esparsos, ao longo dos percursos de coleta.
Este táxon classifica-se como “Vulnerável” (“Vulnerable — VU?, de acordo com a Red List Categories (2001), da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
2.4. Croton floribundus Spreng., Syst. Veg. 3:873. 1826 (Fig.6; Fig.12-G, H).
Árvore até 10,0m alt., caule estrigoso, indumento estrelado-lepidoto. Folhas pecioladas, limbo 11,0- 15,0 x 5,0-7,0cm, cartáceas, elípticas a oblongo- elípticas, base aguda sem glândulas, ápice acuminado, peninérveas, indumento estrelado- lepidoto denso, subglabra (tricomas simples) na face adaxial margem inteira; pecíolo 3,5-6,0cm compr.; estípulas caducas, lanceoladas, foliáceas 1,0 x 0,3cm, tricomas lepidotos. Inflorescências racemos terminais, ca. 22,0cm compr.; brácteas lanceoladas, ápice agudo. Flores estaminadas mais de 50 ao longo do eixo da inflorescência; pedicelo 4,0mm compr.; brácteas 6,0mm x 1,0mm; sépalas 5, ovadas, 4,0 x 2,omm, pilosas; pétalas 5, lanceoladas, 3,0 x 1,0mm, pilosas, delgadas; disco com 5 segmentos pateliformes; estames ca. 16; filetes 3,)0mm compr., pilosos na base; anteras 1,5mm compr., rimosas. Flores pistiladas, mais de 20 na base da inflorescência; brácteas 6,0 x 1,0mm; pedicelo 5,0mm compr., tricomas lepidotos; sépalas 5, lanceoladas, 6,0 x 3,ômm, tricomas lepidotos
externos e estrelados internos; pétalas linear- lanceoladas, 2,5-3,0 x 0,2-0,3mm, tricomas estrelados externos; disco 5 segmentos pateliformes; ovário globoso, 3,0 x 3,0mm, tricomas lepidotos alvos; estilete multipartido, 5,0mm compr., tricomas lepidotos. Frutos cápsulas, ca. de 8,0 x 5,0mm. Sementes 3, elípticas, 5,0 x 4,0mm.
Nomes populares — “Capixingui” (MG, ES, SP), “cambará de lixa” (MG); “marmeleiro” (PA); “sangue-
de-dragão”, “cambraia” (SP).
Distribuição geográfica e habitat — Pará, Ceará, Pernambuco, Bahia, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Na área estudada ocorre em floresta semidecídua montana, em áreas de transição entre matas de galeria, cerrado e campo rupestre.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, Tiradentes, Calçada da Serra, próximo ao ínicio do calçamento da trilha, 24/X/2001 (fl), V.C.Maia & D.Medeiros 134 (R); idem, 21/XI/2001 (fl) V.C.Maia & D.Medeiros 175 (R).
Croton floribundus é árvore pioneira muito frequente na floresta estacional semidecidual, ocorrendo eventualmente em cerradões. É muito abundante em formações secundárias.
Este táxon pode ser facilmente reconhecido no campo, mesmo estando estéril, pois suas folhas são acentuadamente discolores, cartáceas, com indumento amarelado muito áspero ao toque e não apresentam glândulas na base. As estípulas são bem desenvolvidas, foliáceas, porém decíduas, o que muitas vezes impossibilita sua observação em material seco. Os estames são cerca de 16, pilosos na metade inferior.
Os espécimes aqui estudados diferenciam-se da variedade C. floribundus var. piauhyensis, estabelecida por Rizzini (1976), quanto à forma, tamanho e cor do indumento foliar. Representam a variedade C. floribundus Spreng. var. floribundus.
Os racemos jovens são compostos exclusivamente por botões estaminados congestos. As flores pistiladas desenvolvem-se mais tarde, só sendo observadas na base do racemo após seu total crescimento, cerca de um mês depois. Estes dados estão de acordo com os de Passos & Sazima (1995), que relataram uma marcada dicogamia para esta espécie no estado de São Paulo, “sendo o indivíduo ora funcionalmente masculino, ora feminino”. Observaram que as flores pistiladas permanecem receptivas por cerca de dois dias e as estaminadas por apenas um dia.
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EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL ERA
Este táxon enquadra-se na categoria “Menor Preocupação” (“Least Concern — LC?) da Red List Categories (2001), de acordo com os critérios estabelecidos pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
2.9. Croton gnidiaceus Baill., Adansonia 4:854. 1863-64 (Fig.7; Fig. 13-A, B).
Subarbusto 40-60cm alt., ereto, ramos paralelos, delgados, ciliíndricos, glabros nos 2/3 basais, pubérulos quando jovens. Folhas concentradas no ápice do ramo, subsésseis; limbo 0,6-1,3 x 0,3-07cm, subcoriáceas, oval-lanceoladas, base aguda, ápice arredondado-obtuso curtamente acuminado, curtamente palmatinérvea, sem glândulas na base, glabras à primeira vista, porém com indumento estrelado translúcido esbranquiçado em ambas as faces, subglabra adaxialmente; margem moderadamente crenada, diminuto glandulosa; pecíolo praticamente nulo; estípulas alongadas, 0,6- 0,9cm compr., glanduloso-laciniadas. Inflorescências racemos no ápice dos ramos, escondidos entre as folhas, 1,0-1,5ecm compr., tricomas estrelados; brácteas linear-lanceoladas, glanduloso-laciniadas, tricomas estrelados externos. Flores estaminadas 10-18 por inflorescência; brácteas 2,5 x 1,0mm, unifloras; pedicelo 2,0mm compr.; sépalas 5, obovadas, 2,0 x 0,8mm, margem fimbriada, tricomas estrelados em ambas as faces; pétalas 5, obovadas, ápice fimbriado, tricomas simples externos, glabras internamente; disco 5 segmentos pateliformes; estames 10; filetes 1,2mm compr., viloso; anteras mais longas que largas, 1,0 x O,omm, glabras. Flores pistiladas 1-2 na base da inflorescência; subsésseis; brácteas 3,0 x 0,6mm, sépalas 5, triangular-lanceoladas, 7,0 x 2,8mm, tricomas estrelados externamente, simples internamente; pétalas 5, subflabeliformes, 3,0 x 0,6mm, membranáceas, margem ciliada, tricomas esparsos, coloração castanha; disco 5 segmentos, lobados; ovário ovóide, 2,8mm compr., tricomas estrelados; estiletes multipartidos na base (14-17). Frutos cápsulas globosas, 3,5 x 4,0mm. Sementes elípticas a obovais, 2,5 x 2,0mm, testa lisa.
Distribuição geográfica e habitat — Minas Gerais, Serra de São José, Cachoeira do Mangue. Ocorre nos campos rupestres em solo argiloso-pedregoso e de quartzitos areníticos da vertente norte da Serra.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, Tiradentes, Cachoeira do Mangue, VI/2001 (fl), D.Medeiros 36 (R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
Croton gnidiaceus é muito semelhante a C. timandroides, pois ambos são subarbustos com ramos cilíndricos, dicotômicos, folhas subsésseis de pequenas dimensões e inflorescências compactas escondidas entre as folhas. Em campo, a diferenciação de C. gnidiaceus pode ser difícil à primeira vista, mas este táxon exibe indumento claro, não aveludado.
Os caracteres diferenciais de Croton gnidiaceus em relação a C. timandroides são: presença de pétalas flabeliformes alvas na flor pistilada (ausentes nas demais espécies do gênero ocorrentes em campo rupestre estudadas); indumento estrelado denso- lanoso e número de estames que pode variar de 10 a 14, sendo cerca de 10-11 também nas demais espécies próximas.
Espécie menos frequente na área de estudo do que as espécies que lhe são próximas: Croton timandroides, C. vestitus e C. arlineae. Realizaram- se buscas intensivas de coleta e apenas um espécime foi encontrado. Uma espécie até pode ser erroneamente definida como rara, devido à falta de esforço em coleta nas demais regiões, o que acreditamos não ser o caso. Comparando-se sua taxa de ocorrência com a de outras espécies nesta área de estudo, pode-se levantar a hipótese de que este táxon deve estar em extinção, ou que talvez devido a mutações ao longo do tempo, ou a hibridizações, tenha sofrido um processo de especiação, levando à formação de outra espécies, no caso, a nova espécie encontrada.
O fato é que se coletou C. arlineae na forma de população, e C. gnidiaceus apenas isoladamente. A população de C. arlineae foi acompanhada e amostrada por um ano e dois meses, tanto aleatoriamente nos seus limites geográficos de distribuição quanto com espécimes marcados. Encontraram-se alguns indivíduos representando formas de transição entre estas duas espécies, caracterizados por apresentar os dois tipos de pétalas na mesma flor, sendo a pétala típica de C. gnidiaceus sempre em minoria (uma normal ou no máximo duas, com uma normal e outra já reduzida e as restantes glanduliformes, extremamente reduzidas), como se fosse um vestígio de caráter, num processo de redução ou involução das pétalas. Alguns indivíduos apresentaram quatro pétalas reduzidas e apenas uma petalóide, com uma glândula globosa no ápice.
Não existem coletas de C. gnidiaceus depositadas nos herbários visitados. Trata-se, a princípio, de uma espécie endêmica da área de estudo. A
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continuidade do trabalho de pesquisa de campo e de herbário faz-se fundamental para a consolidação destes dados. O levantamento florístico de serras vizinhas, tais como o da Serra do Lenheiro e o da Serra do Caraça, possibilitaria definir um padrão de distribuição geográfica mais conciso e definitivo.
O levantamento bibliográfico realizado sobre esta espécie indicou a total ausência de trabalhos desde o tratamento de MULLER ARGOVIENSIS (1873) na Flora Brasiliensis.
De acordo com os dados discutidos acima e com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), estabelecidos na Red lást Catevories. (2001) esta espécie--é considerada “Criticamente Em Perigo” (“Critically Endangered — CE”).
2.6. Croton timandroides (Didr.) Múll. Arg., Linnaea 34:132. 1865 (Fig.8; Fig.13-C, D).
Subarbusto 20,0-60,0cm alt., ereto, ramificado dicotomicamente, ramos cilíndricos, estrelado- pubescentes, marrons a avermelhados. Folhas densas no ápice dos ramos, subsésseis, limbo 1,4- 3,4 x 0,3-0,7/cm, margem inteira, plana, subcoriáceas, oval-lanceoladas, base obtusa, ápice agudo, peninérveas, avermelhadas e caducas quando velhas, indumento estrelado em ambas as faces, concentrados nas nervuras e margem; pecíolo 1,0mm compr.; estípulas diminutas, 0.7mm compr., glanduloso-laciniadas, 3-5 partidas, caducas. Inflorescências em racemos, glomeruliformes, 1,0-4,3cm compr., poucas flores, escondidas entre as folhas; brácteas lanceoladas, margem glandulosa e tricomas estrelados externos. Flores estaminadas ca. 15 por inflorescência; pedicelo 1,5mm compr.; brácteas 2,4 x 1,0ômm compr.; sépalas 5, oval-lanceoladas, 1,4 x 1,Omm, ciliadas nas margens, tricomas estrelados externos e esparsos internos no ápice dos lobos; pétalas 5, obovais, 1,9 x 0,6mm, ciliadas, translúcidas; disco de 5 segmentos pateliformes; estames ca. 11; filetes 0,8mm compr., pilosos nos 2/3 basais; anteras 0,5mm compr., ovóides. Flores pistiladas 1-2 na base da inflorescência, sésseis; brácteas 5,0mm compr.; sépalas 5, 4,8-6,0 x 1,0-1,3mm, tricomas estrelados externos; disco de 5 segmentos lobados; ovário hirsuto, 0,5mm compr., tricomas estrelados externamente; estiletes 4-partidos (raramente 5-6- partidos). Frutos cápsulas globosas, 4,0 x 4,0mm., indumento estrelado. Sementes 3, elípticas, ca. 3,0 x 2,0mm, testa pontuada.
Distribuição geográfica e habitat — Bahia e Minas Gerais. Na área estudada, ocorre em campos rupestres, em solos entre fendas de afloramentos rochosos e solos quartzíticos e em áreas de cerrado.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, Tiradentes, Cachoeira do Mangue, 13/X1/2000 (1), R.J.V.Alves & D.Medeiros 03 (R); arredores da Cachoeira do Mangue, 27/II1/2001 (fl, fr), D.Medeiros 10, S0(R); trilha para a Cachoeira do Mangue, 28/11/2001 (fl), D.Medeiros 42, 43, 44, 45, 46, 48, 49, 50, 51, 52, 53 (R); idem, 01/1X/ 2001 (fl), D.Medeiros 118 (R); arredores da Cachoeira do Mangue, 25/X/2001 (fl), D. Medeiros 149, 151, 154, 159 (R); Cachoeira do Mangue, 20/X1I/2001 (fl), D.Medeiros 161 (R); início do calçamento da trilha Cachoeira do Mangue-Águas Santas, 22/11/2002 (fl), D.Medeiros 178, 179, 180, 181 (R).
Croton timandroides caracteriza-se pelas folhas oval- lanceoladas, dispostas no ápice dos ramos cilindricos, pubérulos quando jovens e posteriormente glabros; por suas estípulas inconspícuas, glabras, digitadas e ocultas no indumento, e flores pistiladas sésseis. O indumento foliar possui uma distribuição peculiar, concentrando-se na margem e na nervura principal do limbo, sendo esparso ao longo da superfície da lâmina. O número de estames é 10, sendo comum variar entre 10-11.
As estípulas são facilmente diferenciadas das de €C. vestitus, pois são três a quatro vezes mais curtas, digitadas e tri-partidas. Assemelham-se às estípulas de C. gnidiaceus e de C. arlineae por serem glanduloso-laciniadas, mas observou-se que em C. timandroides elas são quase que invarivelmente digitadas.
No exame de exsicatas, as folhas podem parecer glabras à primeira vista, mas uma observação mais acurada em estereomicroscopia evidencia a presença de diminutos pontos referentes ao local de inserção de tricomas estrelados que caíram.
Este táxon é facilmente encontrado nos herbários. Porém foram encontradas algumas espécies morfologicamente semelhantes, determinadas como C. timandroides, entre as quais C. vestitus.
Classifica-se como espécie “Em Perigo” (“Endangered — EN”), de acordo com a Red List Categories (2001), baseada nos critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
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EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 333
2.7. Croton urucurana Baill., Adansonia 4:335. 1864 (Fig.9; Fig. 13-E, F).
Árvore 4,0-10,0m alt., ramos estrelado- pubescentes, tomentosos quando jovens; estípulas foliáceas, partidas no ápice na forma de um gancho lateral, bem desenvolvidas, 0,8-1,5ecm compr. Folhas pecioladas, indumento rosulado, subglabra (tricomas simples) na face adaxial; limbo cartáceo, cordiforme, base cordada, auriculada, ápice acuminado, palmatinérveas, 2-5 glândulas pateliformes na base do limbo e/ou ápice do pecíolo, 6,5-16,0 x 4,5-11,0cm, margem inteira; pecíolo 4,5- 10,5em compr. Inflorescências em racemos longos, eretos, 15,0-29,0cm compr., flores estaminadas na porção superior e pistiladas na base ou ambas, distribuídas conjuntamente ao longo da raque; brácteas lineares. Flores estaminadas mais de 80 por inflorescência; pedicelo 4,0mm compr., tricomas estrelados; brácteas 1,0-4,0 x 1,0mm, tricomas estrelados; sépalas 5, lanceoladas, 2,0 x 1,2mm, tricomas estrelados externamente; pétalas 5, lanceoladas, 2,0 x 1,0mm, tricomas estrelados; disco de 5 segmentos pateliformes; estames 17; filetes 0,/mm compr., pilosos na base; anteras ovóides, 0,ômm compr. Flores pistiladas mais de 40 por inflorescência; pedicelo 2,0mm compr.; brácteas 3,0 x 1,0mm, tricomas estrelados externos; sépalas 5, espatuladas 3,0 x 1,3mm, tricomas estrelados externos; pétalas filiformes, 3,0 x 0,3mm; disco 5-segmentado; ovário tricoca, 2,3 x 2,5 mm, tricomas estrelados; estiletes 2-partidos na base. Frutos cápsulas tricocas, 5,0 x 6,0mm, muricados, deiscência explosiva. Sementes 3, elípticas, 3,9 x 3,0mm, testa rugosa, castanha.
Nomes populares — Brasil: “sangue-de-drago” (DF, MG, SP, RJ); “sangue-de-dragão” (MG, SP); “sangra- d'água” (DF, MS, MG); “sangria-d'água” (SP); “adraga” (MG); “adrago” (DF); “adrago-branco” (MG); “urucurana” (MT, SP); “casutinga” (MG); “mangue” (MG); “pau-de-sangue” (SP); “cambraia” (SP); “cuitelão” (SP); “coração-de-cristo”, “algodoeiro-do- rio”, “algodoeiro-do-mato” (RJ); “sangreado” (Paraguai), “quichua” (Equador).
Distribuição geográfica e habitat — Brasil: Maranhão, Tocantins, Bahia, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. Na área estudada é muito frequente em matas ciliares e em áreas de vegetação secundária ao longo dos rios. Ocorre também, de forma menos significativa, em zonas de transição
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de floresta estacional semidecidual submontana para cerrado, localizadas na vertente sul da Serra.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, Prados, Serra de São José, margem do Córrego Baú, Gruta do Ouro, 14/X1/2000 (f), R.J.V.Alves 6953 (R). BRASIL, MINAS GERAIS, Santa Cruz de Minas, beira da estrada velha São João del Rei-Tiradentes, VIII/2001 (fl, fr), D.Medeiros 113 (R). BRASIL, MINAS GERAIS, Tiradentes, Serra de São José, Caminho do Mangue, 27/11/2001 (fl), D.Medeiros 15 (Rj: “Calçada” da- Serra, 27/11/20001 (fl), D.Medeiros 29 (R); Calçada da Serra, 28/11/2001 (fl), D.Medeiros 47 (R); início da trilha da Cachoeira do Bom Despacho, VI/2001 (fl), D.Medeiros 71 (R); Calçada da Serra, próximo a brejo, 31/VIII/2001 (fl), D.Medeiros 82 (R); beira da estrada São João del Rei-Tiradentes, 31/VIII/2001 (fl), D.Medeiros 89; início da subida na trilha Calçada da Serra, 31/VIII/2001 (FL), D.Medeiros 90 (R); Calçada da Serra, 31/VIII/2001 (fl, fr), D.Medeiros 91 (R); Calçada da Serra, 21/XI/2001 (fl), V.C.Maia & D.Medeiros 167 (R); Caminho do Mangue, 21/XI/ 2001 (fl), V.C.Maia & D.Medeiros 176 (R).
Croton urucurana é uma espécie pioneira aluvial, preferindo locais pouco sombreados, ou formações vegetais em processo inicial de regeneração natural.
Vegetativamente, destaca-se visualmente no campo por apresentar as folhas mais velhas fortemente laranja-avermelhadas. Porém, como foi observado nas coleções de diversos herbários, este táxon pode ser facilmente confundido com C. lagoensis Múll. Arg., C. hemiargyreus Múll. Arg. e C. celtidifolius Baill. Estas espécies são muito parecidas, diferenciando-se pelo número de glândulas na base do limbo e seu respectivo posicionamento em relação ao mesmo, modo de inserção destas glândulas (sésseis ou estipitadas); pelo comprimento do pedicelo das flores pistiladas e pelo número de estames.
MULLER-ARGOVIENSIS (1873) reconheceu três variedades para este táxon na Flora Brasiliensis, utilizando como caracteres diferenciais a cor e a densidade do indumento foliar. Os indivíduos aqui estudados enquadram-se na variedade C. urucurana Baill. var. urucurana.
Durante as coletas da espécie, não houve exsudação de látex ou resina avermelhada, tão comumente citada na bibliografia e que provavelmente deu origem ao nome popular “sangue-de-drago”. O levantamento de herbário
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forneceu registros de ocorrência de látex branco em material coletado em Agudos (SP) e látex vermelho em material de Alfenas (MG). Observamos que este material parece se tratar realmente da mesma espécie, e talvez possa se estabelecer uma relação entre os meses de coleta e a presença de látex. De qualquer forma, registrou-se uma diferença na coloração do mesmo.
De acordo com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), estabelecidos na Red List Categories (2001), este táxon enquadra-se na categoria “Menor Preocupação” (“Least Concern — LC”).
2.8. Croton vestitus Spreng., Syst. Veg. 3:875. 1826 (Figs.10, 13G-H).
Subarbusto 0,40-1,0m alt., ereto, ramos paralelos, cilíndricos, glabros, pubérulos quando jovens. Folhas subsésseis; limbo 1,5-4,2 x 0,2- 0,6cm, margem glandulosa-laciniada, adaxialmente revoluta; subcoriáceas, agudo- lanceoladas, base angulosa, ápice arredondado- obtuso, palmatinérveas, mais concentradas no ápice do ramo, avermelhadas e caducas quando mais velhas, sem glândulas na base, indumento estrelado denso em ambas as faces, aspecto lanescente de tom esbranquiçado; pecíolo 1,0- 2,0mm compr.; estípulas alongadas, 1,7-2,0 x O,Imm, multipartidas, glanduloso-laciniadas, caducas e vermelho-alaranjadas quando mais velhas. Inflorescências em racemos curtos, glomeruliformes, 1,5-3,0cm compr., paucifloras; flores escondidas entre folhas, brácteas linear- lanceoladas, tricomas estrelados externamente. Flores estaminadas 20-30 por inflorescência; pedicelo-ca. 0,2mm compr.: brácteas 3,0-x 0,3mm, unifloras; sépalas 5, lanceoladas, 2,0 x 1,0mm, tricomas estrelados externos e internamente no ápice dos lobos; pétalas 5, obovadas, 1,0 x 0,4mm, membranáceas, ciliadas; disco 5-segmentado, lobado, pateliforme; estames ca. 10-14; filetes 1,0mm compr., tricomas simples na base; anteras ovóides, 0,7 x 0,4mm. Flores pistiladas ca. 2 na base da inflorescência; sésseis; brácteas 6,0 x 0,7mm acompanhadas de 2 laterais menores, ca. de 1,0mm compr. cada; sépalas 5, triangular- lanceoladas, 6,0 x 2,0mm, laciniado- glandulosas, tricomas estrelados externos; disco o-segmentado, lobado; ovário ovóide, 3,0 x 2,omm, tricomas estrelados; estiletes 2-partidos
na base e no ápice. Frutos cápsulas globosas, 4,8mm compr., pilosos. Sementes 3, elípticas, 3,0-4,0 x 2,0mm, testa pontuada, brilhante.
Distribuição geográfica e habitat — Minas Gerais (Serra de São José, Itabira do Campo e Serra de Ouro Branco). Na área estudada ocorre em campos rupestres em solo argiloso-pedregoso e de quartzitos areníticos da vertente norte da serra e áreas de transição de cerrado-campo rupestre.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, Tiradentes, borda da trilha para Cachoeira do Mangue, 13/XI/2001 (fl), R.J.V.Alves 6937 & D.Medeiros 02 (R); topo da formação principal da Serra extremidade oeste, 27 MI /L2001 (tj; D.Medeiros 12, 15 (R); alto da Calçada da Serra, 27/11/2001 (fl, fr), D.Medeiros 22, 283, 24, 27, 35, 38, 39, 40, 41 (R); topo da Calçada da Serra, logo após o término do calçamento da trilha, VI/ 2001 (fl), D.Medeiros 73, 74, 75, 76, TT, T8 (RB); topo da Calçada da Serra, 31/VIII/2001 (fl), D.Medeiros 107, 109 (R); topo da Calçada da Serra, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 139 (R); Cachoeira do Mangue, 25/X/2001 (fl), D. Medeiros 157, 160 (R); Calçada da Serra, 21/XI/2001 (fl), D.Medeiros 168 (R).
À primeira vista, Croton vestitus assemelha-se a C. timandroides e C. gnidiaceus. Estas espécies são subarbustos ou arbustos com ramos cilíndricos, dicotômicos, com folhas subsésseis de pequenas dimensões e inflorescências compactas escondidas entre as folhas. Em campo, a diferenciação de C. vestitus pode ser difícil à primeira vista, porém este táxon possui folhas mais longas e estreitas, com margem recurvada para cima, apresentando numerosas glândulas (estipitadas nas folhas jovens) e indumento de aspecto lanoso, denso, esbranquiçado, contrastando com as folhas oval-lanceoladas, de margem plana e indumento esparso, decíduo, de C. timandroides e C. gnidiaceus.
O indumento e as glândulas na margem do limbo sofrem nítida variação ao longo do desenvolvimento dos indivíduos em C. vestitus. Os jovens apresentam glândulas estipitadas e denso indumento, enquanto nos adultos as glândulas são discretas, de difícil visualização no campo, e o indumento subadpresso torna-se bem menos lanescente. Além disso, as folhas jovens, são praticamente dobradas adaxialmente, tanto em indivíduos jovens como em adultos.
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SPRENGEL (1826) e MULLER-ARGOVIENSIS (1873) não citaram a presença de pétalas nesta espécie. Porém observamos pétalas muito reduzidas, bem menores que os segmentos do disco, glanduliformes, semelhantes às encontradas em C. arlineae.
Taxonomicamente, segundo MUÚLLER-VERSALETE (1873), C. vestitus é próximo de C. josephinus Múll. Arg., diferenciando-se deste pela margem do limbo estipitado-glandulosa e pela distribuição do indumento nos filetes e anteras. Outra espécie citada como próxima a C. vestitus nesta mesma obra, porém com menor similaridade, é C. nitrariaefolio (Baill.) Múll. Arg. que se diferencia pelo indumento, pela pilosidade nas anteras e por ser dióica.
Croton vestitus é muito abundante na vertente sul da Serra, e ocorre em densas populações, muitas vezes em conjunto com Croton timandroides. É mais frequente em solo arenoso, muito exposto e em rochas que compõem os campos rupestres.
Existem pouquíssimas coletas deste táxon depositadas nos herbários brasileiros, e todas estas são de campos rupestres de serras de Minas Gerais; e o levantamento bibliográfico realizado sobre esta espécie indicou a total ausência de trabalhos desde o tratamento de MULLER ARGOVIENSIS (1873) na Flora Brasiliensis.
De Acordo Com os critérios: da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), estabelecidos na Red List Categories (2001), esta espécie é considerada “Em Perigo” (“Endangered — EN?).
3. Euphorbia L.
3.1. Euphorbia chrysophylla Klotzsch ex Boiss., DC. Prodr. 15(2):194. 1866 (Fig.11).
Ervas, 20,0-80,0cm alt., eretas, ramos simples ou ramificados, avermelhados na porção basal, glabros, latescentes, parte basal subterrânea, espessada. Folhas, alternas, verticiladas tornando-se opostas perto da inflorescência, limbo 2,8-3,0 x 0,4-0,7cm, base simétrica, obtusa, ápice agudo, margem inteira, espessada, linear-lanceoladas, crasso-membranáceas, verde- acinzentadas, peninérveas; pecíolo ca. de 1.0mm compr.; estípulas foliáceas, interpeciolares, 1,5 x 0,7mm compr. Inflorescências em ciátios, dispostos em dicásios, geralmente terminais em diferentes estágios de desenvolvimento; pedúnculos dos ciátios 1,0-6,0mm compr.;
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invólucro ca. 2,0 x 2,0mm, glabro na parte externa, viloso internamente; lobos triangulares na parte superior, tricomas simples esparsamente distribuídos; apêndices 5, petalóides, ungúiculados, 1,3-2,0 x 1,0mm; nectários glanduliformes, pateliformes, adnados à base do apêndice, 2,0 x 1,0mm; brácteas 3- partidas, fimbriadas 1,5 x 0,5mm, em meio aos lobos do invólucro. Flores estaminadas ca. de 16 por ciátio, em meio à numerosas bractéolas modificadas; pedicelo ca. de O,3mm compr.; filete 0,6-1,0mm compr.; antera 0,3-0,4mm larg. Flores pistiladas monoclamídeas; pedicelo 3,0mm compr.; sépalas triangulares, 0,6-1,0mm x O,5mm; ovário 1,3-2,0 x 1,5-3,0mm; estiletes 3, bipartidos no ápice, ca. 1,ô5mm compr.; estigmas globosos. Frutos cápsulas, 4,0 x 4,0mm. Sementes 3, 2,0 x 2,0mm, testa rugosa, envoltório mucilaginoso.
Distribuição geográfica e habitat — Minas Gerais. Há registros em formação rupestre, entre rochas de quartzito e itacolomito; campo pedregoso e zona de transição cerrado-campo rupestre. Na área estudada ocorre em campos rupestres.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, Tiradentes, trilha de acesso pela Cachoeira do Bom Despacho, 24/X/2001 (fl, fr), D. Medeiros 146 (R); Cachoeira do Mangue, encosta sul do córrego, 25/X/2001 (fl, fr), D. Medeiros 152 (R).
O látex de Euphorbia chrysophylla é abundante e extremamente viscoso e pegajoso, podendo ser observado em todos os órgãos da planta.
Os indivíduos coletados habitavam solos formados sobre rochas de quartzito, entre fendas, próximos a fontes de água permanentes e temporárias. Observamos que nas populações vizinhas encontravam-se, quase que invariavelmente, Phyllantus nirurie Chamaesyce caecorum. Porém, sua distribuição geográfica e frequência mostraram-se muito mais restritas que esta última.
Acreditamos que o baixo número de exsicatas depositado nos herbários visitados seja proporcional ao esforço de coleta e não uma consequência de uma possível redução populacional. Entretanto, de acordo com os dados obtidos até o momento e os critérios estabelecidos pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), na Red List Categories (2001), Euphorbia chrysophylla é considerada “Vulnerável” (“Vulnerable — VU?).
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A
Fig.2- Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.) Croizat. (A) hábito; (B) inflorescências; (C) ciátio, flor pistilada ao centro; (D) parte interna do ciátio; (E) flor estaminada; (F) fruto; (G) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) mm, (C) Imm, (D) Imm, (E) Imm, (F) 2mm, (G) Imm; (D.Medeiros 153-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
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Fig.3- Croton antisyphiliticus Mart. (A) ramo; (B) estípula; (C) detalhe da superfície foliar abaxial, (C” glândula; (D) detalhe da base da folha com glândulas; (E) flor estaminada; (F) flor pistilada; (G) fruto; (H) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) Imm, (C) 0,5mm, (C? 0,5mm, (D) 0,5mm, (E) 2mm, (F) Imm, (G) 2mm, (H) 2mm; (D.Medeiros 123-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
338 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
Fig.4- Croton arlineae D.Medeiros, Senna & Alves. (A) ramo; (B) detalhe do ramo com glândulas e estípula ao centro; (C) inflorescência, (D) flor estaminada: (E) sépala (vista ventral), (F) pétala (vista ventral); (G) flor pistilada; (G” pétala; (H) fruto; (I) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) 0,5mm, (C) 5mm, (D) 2mm, (E) Imm, (F) Imm, (G)2mm, (G? 0,5mm, (H) 2mm, (1) 2mm; (D.Medeiros 33-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL Sao
Fig.5- Croton campestris A.St-Hil.. (A) ramo; (B) inflorescência; (C) flor estaminada: (D) pétala (vista ventral); (E) flor pistilada: (F]) sépala (vista ventral), (G) detalhe do disco com pétalas globosas reduzidas (seta) entre os segmentos; (H) fruto; (1)
semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) mm, (C) Imm, (D) Imm, (E) Imm, (F) Imm, (G) Imm, (H) 2mm, (1) 2mm; (D.Medeiros 132-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
340 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
Fig.6- Croton floribundus Spreng. (A) ramo; (B) estípula; (C) flor estaminada em botão: (D) sépala (vista dorsal), (E) pétala (vista dorsal); (F) flor pistilada: (G) sépala (vista dorsal), (H) pétala (vista dorsal). Escalas: (A) 2cm, (B) mm, (C) 2mm, (D) Imm, (E) Imm, (F) 2mm, (G) 2mm, (H) Imm; (D.Medeiros 175-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 341
Fig.7- Croton gnidiaceus Baill. (A) ramo; (B) estípula; (C) inflorescência; (D) flor estaminada: (E) sépala (vista dorsal), (F) sépala (vista ventral), (G) pétala (vista dorsal); (H) flor pistilada: (I) sépala (vista dorsal), (J) pétala (vista ventral); (L) fruto; (M) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) Imm, (C) 5mm, (D) Imm, (E) Imm, (F) Imm, (G) Imm, (H) 2mm, (1) 2mm, (J) 2mm (L) 2mm, (M) 2mm; (D.Medeiros 36-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
342 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
— q
) y
y: =
ES
A
Fig.8- Croton timandroides (Didr.) Múll. Arg. (A) ramo; (B) estípula; (C) flor estaminada: (D) pétala (vista ventral), (E) pétala (vista dorsal); (F) flor pistilada: (G) sépala (vista dorsal); (H) fruto; (1) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) Imm, (C) Imm, (D) Imm, (E) Imm, (F) 2mm, (G) 2mm, (H) 2mm, (1) 2mm; (D.Medeiros 159-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 343
; um a ))) a
Fig.9- Croton urucurana Baill. (A) ramo; (B) estípula; (C) detalhe da base da folha, (C” glândula; (D) flor estaminada; (E) flor pistilada: (F) disco com pétalas filiformes reduzidas; (G) fruto; (H) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) Imm, (C) Imm, (C?) Imm, (D) 2mm, (E) 2mm, (F) Imm (G) 2mm, (H) 2mm; (D.Medeiros 71-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
344 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
Fig.10- Croton vestitus Spreng. (A) ramo; (B) estípula; (C) inflorescência; (D) flor estaminada: (E) sépala (vista ventral), (F) estame; (G) flor pistilada; (H) fruto; (1) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) 2mm, (C) mm, (D) 2mm, (E) Imm, (F) Imm, (G) 2mm, (H) 2mm, (1) 2mm; (D. Medeiros 38-R).
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EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 345
: D
Fig.11- Euphorbia chrysophylla Boiss. ex Klotzsch. (A) ramo; (B) inflorescência; (C) flor pistilada (ao centro) e flores estaminadas no ciátio; (D) flor estaminada; (E) fruto jovem. Escalas: (A) lcm, (B) ô5mm, (C) 2mm, (D) Imm, (E) 2mm; (D.Medeiros 146-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
346 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
EZRA TA A
Vi, Pora dy
Fig.12- Fotomicrografias (MEV) do indumento foliar em Croton (MEV): superficie abaxial (à esquerda) e adaxial (à direita). (A), (B): C. antisyphiliticus; (C), (D): C. arlineae; (E), (F): C. campestris; (G), (H): C. floribundus. Escalas: (A-B, D-H) 100um, (C) 50um.
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EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 347
- La SÁ ' | Ap TO
Fig.13- Fotomicrografias (MEV) do indumento foliar em Croton (MEV): superficie abaxial (à esquerda) e adaxial (à direita). (A), (B): C. gnidiaceus; (C), (D): C. timandroides; (E), (F): C. urucurana; (G), (H): C. vestitus. Escalas: 100um.
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348 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
CONCLUSÕES
A Serra de São José possui sua maior parte coberta por vegetação típica de campo rupestre, e provavelmente o número de espécies encontradas não representa o total real, pois é notável a riqueza de endemismos neste tipo de ambiente. Apesar de não estar entre as cinco famílias dominantes em número de espécies, Euphorbiaceae está muito bem representada em número de indivíduos de alguns táxons, como Chamaesyce caecorum, Croton antisyphuliticus, C. timandroides e C. vestitus.
Croton seção Medea, sensu Webster (1994), é o grupo mais expressivo tanto em número de espécies (C. arlineae, C. gnidiaceus, C. timandroides e C. vestitus) como em número de indivíduos. As espécies de Croton ocupam diferentes áreas da serra, de acordo com as vertentes norte e sul. Apenas C. timandroides e C. vestitus foram observados em áreas de contato num mesmo ponto de coleta. O trabalho de herbário e a análise taxonômica mostraram que o material depositado nas instituições é escasso, e que na maioria das vezes espécies taxonomicamente próximas são igualmente identificadas como C. timandroides.
Entre as contribuições taxonômicas e morfológicas, destacam-se a descrição de uma espécie nova para a Ciência (Croton arlineae) e o primeiro registro de recoleta de C. gnidiaceus desde o material-tipo descrito por Baillon. A observação e a esquematização das pétalas (reduzidas em C. urucurana e em C. floribundus; extremamente reduzidas em C. campestris e flabeliformes em C. gnidiaceus) complementaram as descrições originais e outras subsequentes.
A variação morfológica dos tricomas foliares associada a outros caracteres constitui importante caráter taxonômico em Croton, o que justifica a realização de estudos morfológicos e anatômicos. Os tricomas simples apresentaram-se como exceções, tendo ocorrência restrita à superficie adaxial de C. urucurana, como também em C. antisyphiliticus e C. floribundus se considerarmos a significativa redução dos raios distais, muitas vezes ausentes de todo. As espécies arbustivas de campo rupestre só apresentaram tricomas simples nas estruturas florais, como filetes, anteras e face(s) das pétalas. Os tricomas do tipo estrelado-lepidoto, considerados uma categoria do tipo lepidoto, restringiram-se a C. floribundus; e os do tipo rosulado a C. urucurana.
Pôde-se caracterizar a distribuição geográfica dos
táxons em: ampla (América do Sul e Brasil), nos casos de Chamaesyce caecorum, C. urucurana e €. floribundus; moderada (cerrados do Brasil Central), para C. antisyphiliticus e C. campestris; restrita (campos rupestres de Minas Gerais e Bahia), para C. timandroides, C. vestitus e Euphorbia chrysophylla; e muito restrita, para C. gnidiaceus e C. arlineae.
AGRADECIMENTOS
A Dra. Valéria Maia (Museu Nacional - Rio de Janeiro), pela parceria no trabalho de campo; à Direção da Floresta Nacional (FLONA) de Ritápolis/ MG e a Pedro Sérgio Fernandes (Tiradentes, MG), pelo apoio logístico. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela bolsa concedida a D.Medeiros; à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela verba Pró-Reitoria de Administração e Planejamento (PROAP) concedida ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica) do Museu Nacional.
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ISSN 0365-4508
Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.351-353, abr./jun.2008
DESCRIÇÃO DE UMA NOVA ESPÉCIE DE CYRTONEUROPSIS MALLOCH, 1925 (DIPTERA, MUSCIDAE) E PRIMEIRO REGISTRO DO GÊNERO NO ESTADO DO MARANHÃO, BRASIL:
(Com 6 figuras)
MÁRCIA S. COURI 23 GABRIEL P. DA S. BARROS *? MARCELO P. ORSINI 255
RESUMO: Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. do Estado do Maranhão, Brasil, é descrita com ilustrações da terminália do macho e da fêmea. O gênero é assinalado pela primeira vez no Estado do Maranhão, Brasil.
Palavras-chave: Diptera. Muscidae. Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. Taxonomia. Novo registro.
ABSTRACT: Description of a new species of Cyrtoneuropsis Malloch, 1925 (Diptera, Muscidae) and first
record of the genus for the state of Maranhão, Brazil.
Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. from the State of Maranhão, Brazil, is described with illustrations of male and female terminalia. The genus is recorded for the first time from the State of Maranhão, Brazil.
Key words: Diptera. Muscidae. Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. Taxonomy. New record.
INTRODUÇÃO
Cyrtoneuropsis Malloch, 1925 é um múscida de distribuição neotropical com 33 espécies válidas (CarvaLHO et al., 2005). Este gênero foi durante muitos anos considerado sinônimo de Cyrtoneurina Giglio-Tos, 1893, porém foi recentemente revalidado (PamPLONA, 1999 e Pont & PampLONA, 2000).
Cyrtoneuropsis pode ser facilmente separado dos demais múscidas na chave de CarvaLHO & CoURI (2002) tendo como diagnose o seguinte conjunto de caracteres: cerdas dorsocentrais 2:4, cerdas caterpisternais 1:2, anepímero setuloso, parede pós-alar nua, arista com longos cílios, podendo em algumas espécies ter cílios secundários, nervura R, setulosa na superfície ventral, nervura M levemente curvada apicalmente.
O material referente à espécie aqui descrita foi coletado em uma expedição na região de Igarapé Paraqueú, Rosário, Maranhão no ano de 1970 pelo ornitólogo e acarologista do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro Herbert Franzoni Berla (1912-1985).
! Submetido em 06 de julho de 2007. Aceito em 14 de abril de 2008.
O material examinado encontra-se depositado na coleção do Museu Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ).
Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. (Figs.1-6)
Coloração geral — Castanha com pouca polinosidade cinza; parafaciália, faciália e lânula castanha com polinosidade prateada; gena castanha com polinosidade cinza; antena e palpo amarelos. Pós- pronoto e ápice do escutelo amarelo escuro. Asas hialinas com ápice da nervura subcostal e nervuras transversais r-m e dm-cu com manchas castanhas. Caliptra hialina, alguns exemplares com a borda da caliptra inferior castanha; halteres amarelos; espiráculos brancos, o posterior com a borda castanha. Pernas castanhas. Abdome castanho com tergito 1 e metade basal do tergito 2 amarelos, tergito 2 com duas manchas triangulares castanhas na metade basal.
E > Comprimento: corpo: 5,0-6,0mm; asa: 5,0- S,omm.
Cabeça — Olhos nus; antena inserida na altura
? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Entomologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. * Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq).
E-mail: mcouri(aterra.com.br * Bolsista UFRJ/PIBIC. * Bolsista CNPq/PIBIC.
352
M.S.COURL G.P.S.BARROS & M.PORSINI
da metade dos olhos, flagelo cerca de 2,5-3 vezes cerda mediana nas faces ântero-ventral, ântero- mais longo que o pedicelo; arista longamente dorsal e póstero-dorsal e uma cerda apical nas faces ciliada com 20-24 cílios e com cílios secundários ântero-dorsal e ventral.
curtos. Vibrissa forte, com comprimento semelhante ao da arista. Palpo com cílios longos ventrais e curtos dorsais.
Tórax — Cerdas acrosticais O:l; dorsocentrais 2:4; pré-alar presente; intralares 0:2; supralares 2; prosterno com cerdas na margem e propleura nua. Escutelo com um par de cerdas basais e um par de cerdas apicais, ambos longos; anepisterno com uma série de quatro cerdas longas; cerdas catepisternais 1:2; anepímero com cílios longos e retos no disco; catepimero com grupo de cílios nos 2/3 anteriores. Asas com nervura R, com cílios dorsais em toda sua extensão e cerca de três cílios ventrais; R,,, com cílios dorsais, mais espaçados depois da transversal r-m e com cílios ventrais em toda sua extensão. Fêmur anterior com uma fileira de cerdas fortes nas superfícies dorsal, póstero-dorsal e póstero- ventral. Tíbia anterior com uma cerda apical nas superfícies dorsal, posterior, ventral e póstero-dorsal. Fêmur médio com uma fileira de cerdas anteriores no terço basal; uma fileira de cerdas ântero-ventrais no terço basal; uma fileira de cerdas póstero- ventrais nos dois terços apicais, duas cerdas apicais póstero- dorsais fortes; uma cerda apical posterior forte. Tíbia média com duas cerdas posteriores fortes inseridas no limite dos terços, uma cerda apical nas faces ântero- ventral, póstero-dorsal, póstero- ventral e ventral, a última mais forte. Fêmur posterior com uma fileira completa de cerdas na face ântero-dorsal; face ântero-ventral com cerca de 2-3 cerdas no terço apical e face dorsal com uma cerda apical. Tíbia posterior com uma
Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov.: fig.1- esternito 5, O ; fig.2- placa cercal, vista frontal, O; fig.3- complexo fálico, vista dorsal; fig.4- complexo fálico, vista lateral; fig.5- ovipositor, vista dorsal; fig.6- ovipositor, vista ventral. Escalas = 0,2mm.
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DESCRIÇÃO DE UMA NOVA ESPÉCIE DE CYRTONEUROPBSIS E 1º REGISTRO DO GÊNERO NO MARANHÃO, BRASIL 353
Abdome — Tergito 5 com uma fileira discal e uma apical de cerdas finas. Esternito 5 com cerdas mais concentradas no terço apical, mais longas lateralmente (Fig.1).
Terminália — Sustilo longo ultrapassando a margem da placa cercal; edeago arredondado no ápice (Figs.2-4).
Pa comprimento: corpo; 5,0-6,0mm; asa: 5,0-5,0mm. Semelhante ao macho, porém com olhos afastados cerca de um terço da largura da cabeça; seis cerdas frontais; cerdas verticais internas e externas mais
longas e fortes que as do macho; cerdas interfrontais cruzadas presentes.
Ovipositor — Tamanho médio; tergitos e esternitos estreitos e longos; membrana do segmento 8 com curtos espinhos ventrais (Figs.5-6).
Variação cromática — A série examinada apresenta variação cromática especialmente nos tergitos abdominais que podem variar de amarelo a castanho; nas manchas castanhas triangulares na base do tergito abdominal 2 que podem ser pouco nítidas; nas manchas das asas que podem variar de castanho bem claro a castanho escuro e na coloração dos palpos, de amarelo a castanho.
Material examinado - Holótipo G : BRASIL: Maranhão, Igarapé Paraqueú, Rosário, 20-22/XI/ 1970; Berla col. Parátipos : 89 e 409, mesmos dados de coleta do holótipo (MNRJ).
Etimologia — O nome da espécie refere-se à procedência do material (Estado do Maranhão, Brasil).
DISCUSSÃO
Na chave de CarvaLHO & Court! (2002), Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. aproxima-se de C. dubia (Snyder, 1954), sendo morfologicamente bastante semelhante a ela, porém diferindo pela presença de mancha castanha clara na dm-cu e principalmente pela morfologia bastante distinta das terminálias masculina e feminina. SnyDER (1954)
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.351-353, abr./jun.2008
comentou sobre a existência de espécies deste gênero tanto com quetotaxia muito diferente e terminálias muito semelhantes, quanto outras distintas apenas pela morfologia das terminálias. Couri (1995) descreveu C. pararescita e discutiu a sua semelhança morfológica com C. rescita Walker, 1861 porém com terminálias distintas. Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. corresponde ao primeiro registro deste gênero no Estado do Maranhão, Brasil.
AGRADECIMENTO
Ao MsC André Mallemont Cunha (MMNR), pela ajuda na confecção da prancha.
REFERÊNCIAS
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Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008
A NEW SPECIES OF GALL MIDGE (DIPTERA, CECIDOMYINDAE) ASSOCIATED WITH SEBASTIANIA GLANDULOSA (EUPHORBIACEAE) ! (With 14 figures)
UELLINTON PEREIRA DE OLIVEIRA 2º VALÉRIA CID MAIA 2 *
ABSTRACT: Clinodiplosis conica sp.nov., a new cecidomyiid that induces conical bud galis on Sebastiania glandulosa (Mart.) Pax (Euphorbiaceae) is described (larva, pupa, adults male and female) based on material from restinga areas of the State of Rio de Janeiro (Brazil).
Key words: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis conica sp.nov. Gall. Taxonomy.
RESUMO: Uma nova espécie de mosquito galhador (Diptera, Cecidomyiidae) associado com Sebastiania
glandulosa (Euphorbiaceae).
Clinodiplosis conica sp.nov., um novo cecidomiídeo que induz galhas cônicas nas gemas de Sebastiania glandulosa (Mart.) Pax (Euphorbiaceae) é descrito (larva, pupa, adultos macho e fêmea) com base em material coletado em áreas de restinga do Estado do Rio de Janeiro (Brasil).
Palavras-chave: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis conica sp.nov. Galha. Taxonomia.
INTRODUCTION
Three kinds of insect galls have been recorded on Sebastiania glandulosa (Mart.) Pax (Euphorbiaceae): conical bud gall, spherical bud gall, and marginal leaf roll (Figs.35-37, respectively, in Maia, 2001). All of them are induced by not determined species of gall midges (Diptera, Cecidomyiidae). In this paper, the inducer of conical bud gall is identified and described based on material from the restinga areas of the State of Rio de Janeiro.
MATERIAL AND METHODS
Part of the examined specimens was previously incorporated into the Diptera collection of Museu Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ) by V.C.Maia as voucher material of previous ecological investigations. As few specimens were deposited, field works were done in order to obtain more material.
Samples of conical galls on Sebastiania glandulosa were collected in June and July 2000, August 2002, and July 2008 at the restinga of Barra de Maricá (Maricá, Rio de Janeiro). The samples were carried to the laboratory in plastic bags, where they were
'! Submitted on September 27, 2005. Accepted on March 28, 2008.
transfered to plastic pots in order to obtain adults and pupal exuviae. These pots were checked daily. The material obtained were first preserved in 70% ethanol and then mounted on slides following the methodology of Gaank (1994). All specimens (including the types) are deposited in the Diptera collection of Museu Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ). Terminology for adult and immature morphology follows Gacné (1994).
Clinodiplosis conica sp.nov. (Figs.1-14)
Diagnosis — Spatula with two divergent anterior teeth; prothoracic spiracle digitiform and long (larva); abdominal segments 2-7 with dorsal spines restricted at basal 1/3 and integument sculptured beyond midlength; abdominal segments 8 and 9 without spines (pupa); tarsal claws simple, curved beyond midlength, empodium rudimentary; female tergites 1-7 rectangular with a row of caudal and mesal setae (adult).
DESCRIPTION
Adult - Body length: 2.0-2.3mm (n=4). Head (Fig.1): Eye facets circular, closely approximated.
2? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Entomologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
* E-mail: vellintonoliveira(dyyahoo.com.br. * E-mail: maiavcid(macd.ufr;.br.
356 U.POLIVEIRA & V.C.MAIA
Antenna with hemispherical and setose scape, globose and setose pedicel, binodal and tricircumfilar male flagellomeres (circumfila with loops regular in length) (Fig.2), bare necks in both sexes; female with cylindrical and mesally constricted flagellomeres, female circumfila as two interconnected rings (Fig.3). Flagellomere 12 with a setulose apical process in both sexes. Frontoclypeus with 10 setae (n=4). Labrum long- attenuate with three pairs of ventral sensory setae. Hypopharynx of the same shape as labrum, with long, anteriorly directed lateral setulae. Labellae elongate-convex, each with several lateral setae and a pair of short mesal sensory setae. Palpus with four setose crescent cylindrical segments.
Thorax. Anepimeron with 5-10 setae (n=3), other pleural sclerites asetose. Wing (Fig.4) length: 1.75- 1.9mm (n=4). Tarsal claws simple, curved beyond midlength; empodium not reaching to the bend of the claw (Fig.5).
Abdomen. G (Fig.6): tergites 1-7 rectangular with a complete row of caudal setae, several lateral setae, two basal trichoid sensilla and elsewhere with scattered scales. Tergite 8 not sclerotized, with two trichoid sensilla. Sternites 2-7 rectangular with setae more abundant mesally, a complete row of caudal setae, several lateral setae and two basal trichoid sensilla; sternite 8 rectangular with a complete row of caudal setae, scattered mesal setae, lateral setae and two basal trichoid sensilla. Female (Fig.7) — tergites 1-7 rectangular with a complete row of caudal setae, a row of mesal setae, lateral setae, two basal trichoid sensilla and elsewhere with scattered scales; tergite 8 not sclerotized with a pair of trichoid sensilla. Sternites 2-7 rectangular with setae more abundant mesally, a complete row of caudal setae and two basal trichoid sensilla. Sternite 8 not sclerotized and with a pair of trichoid sensilla.
G terminalia (Fig.8). Gonocoxites wide with a setose mesobasal lobe, gonostylus slightly curve, with 0.78 gonostylus long; cerci secondarily lobed and setose; hypoproct elongate, deeply bilobed (lobes narrow) and longer than cerci; aedeagus long-attenuate, rounded at apex and longer than hypoproct.
Ovipositor (Fig.9). Barely protrusible, cerci elongate ovoid, separate and setose (a pair of apical setae stronger than the others); hypoproct
sligthly bilobed and setose. Length from distal margin of sternite 7 to end: 0.42-0.45mm.
Pupa. Color: brownish. Length: 2.2-2.4mm (n=83). Head (Fig.10): antennal horn triangular, simple, short (length: 0.0lImm; n=3); cephalic seta 0.04- 0.05mm long (n=3); two pairs of setose lower facial papillae: one pair with a seta 0.0iImm long (n=3) and the other asetose; three pairs of lateral facial papillae (one pair setose and the others asetose). Upper cephalic margin thickened laterally. Thorax: prothoracic spiracle digitiform and well developed (length: 0.18-0.19mm, n=2) (Fig.11); wing sheath reaching 1/2 of abdominal segment 3; foreleg sheath ending at midlength of abdominal segment 5; midleg sheat ending at 2/ 3 of abdominal segment 5; hindleg sheath ending at distal 1/3 of abdominal segment 5. Abdomen: segments 2-7 with well developed dorsal spines at basal 1/3, dorsal papillae at midlength and striae near distal 1/3 (Fig.12); segments 8 and 9 without spines.
Larva. Body cylindrical and tapered at both ends. Color: yellow. Length: 2.1-2.7mm (n=4). Integument rough. Spatula with two divergent anterior teeth and stalk long (Fig.13). Sternal papillae asetose.Two groups of three lateral papillae on each side of spatula. Ventral papillae asetose, terminal segment with three pairs of corniform papillae (a pair shorter than the others) and a pair of setose papillae (setae 0.025-0.03mm long, n=4) (Fig. 14).
Gall (Fig.35 in Maia, 2001). Conical bud gall, reddish or green, one-chambered.
Type-material —- BRAZIL, RIO DE JANEIRO: Maricá (Restinga da Barra de Maricá), 13/VIII/2002, V.Maia leg., Holotype O . Paratypes: same data — 1S ; same locality and collector - 11/VII/2003, 2 larvae; 18/VII/2003, 2 pupal exuviae and 19: 11/11/2005, 29 . MNRJ.
Other material — BRAZIL, RIO DE JANEIRO: Maricá (Restinga da Barra de Maricá), 12/VI/ 2001, Maia and Azevedo colis, 2 pupae and 1 pupal exuvia; 18/VII/2003, Costa and Maia cols, 1S and 1 pupal exuvia. Carapebus, 29/VI/1998, V.Maia leg., 2 pupal exuviae; same locality and collector, 29/VI/1998, 2 pupal exuviae; 24/VII/ 1998, 19; 26/1X/1998, 1 larva; 28/XI/1998, 1 pupal exuvia. MNRJ.
Etymology — The name conica refers to the shape of the gall.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008
357
A NEW SPECIES OF GALL MIDGE ASSOCIATED WITH S. GLANDULOSA
Clinodiplosis conica sp.nov.— fig.1- O, head (frontal); fig.2- O, antennal flagellomere 5; fig.3- 2, antennal flagellomere 5; fig.4- O , wing; fig.5- O , foreleg, tarsal claw and empodium (lateral); fig.6- O , abdominal segment 6 to 8 (dorsolateral); fig.7- P , abdominal segment 5 to end (dorsolateral); fig.8- O, terminalia (lateral); fig.9- ? , cerci and hypoproct (lateral). Scale
bars: 1=0.16mm; 2-3=0.05mm; 4=0.5mm; 5=0.3mm; 6,8-9=0. Imm; 7=0.45mm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008
358 U.POLIVEIRA & V.C.MAIA
e sa
Pupa of Clinodiplosis conica sp.nov.— fig. 10- head (frontal); fig. 11- prothoracic spiracle; fig. 12- abdominal segment 7 (dorsal); fig.13- larva, spatula prothoracic and associated papillae (ventral); fig.14- abdominal segments 8 and 9 (dorsal). Scale bars: 10,12=0.2mm; 11,13-14=0. Imm.
ACKNOWLEDGEMENTS REFERENCES
We are grateful to Fundação de Amparo à Pesquisa GAGNÉE, R.J., 1994. The gall midges of the Neotropical do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) (Proc. region. Ithaca: Cornell University Press, 352p.
171.290/06), for financial support. MAIA, V.C., 2001. The gall midges (Diptera,
Cecidomyiidae) from three restingas of Rio de Janeiro State, Brazil. Revista Brasileira de Zoologia 18(2):583-629.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008
ISSN 0365-4508
Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008
GALL MIDGES (DIPTERA, CECIDOMYIIDAE) ASSOCIATED WITH HETEROPTERIS NITIDA DC. (MALPIGHIACEAE) ' (With 20 figures)
ROBERTA NOVO-GUEDES 2º VALÉRIA CID MAIA 24
ABSTRACT: Four species of gall midges (Diptera, Cecidomyiidae) were obtained from flower buds of Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae). Clinodiplosis floricola sp.nov. (larva, pupa, male and female) is described based on material collected at the restinga of Barra de Maricá, Maricá, Rio de Janeiro.
Key words: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis floricola sp.nov. Gall. Malpighiaceae.
RESUMO: Mosquitos de galhas (Diptera, Cecidomyiidae) associados com Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae).
Quatro espécies de mosquitos de galha (Diptera, Cecidomyiidae) foram obtidas de botões florais de Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae). Clinodiplosis floricola sp.nov. (larva, pupa, macho e fêmea) é descrita com base em material coletado na restinga da Barra de Maricá, Maricá, Rio de Janeiro.
Palavras-chave: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis floricola sp.nov. Galha. Malpighiaceae.
INTRODUCTION
Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae) occurs from Bahia to Paraná and is very abundant at the restinga of Barra de Maricá, where it is easily found along the road of Zacharias Beach (Mais, 2001). The closed flowers of this plant are frequently destroyed by larvae of Clinodiplosis sp. (Diptera, Cecidomyiidae), which leave the plant and pupate in the soil. In this paper, this species of Clinodiplosis is described.
Phytophagous larvae of other species of Cecidomyiidae were found at the same time in the closed flowers. These species are recorded herein.
MATERIAL AND METHODS
Part of the examined specimens was previously obtained by Maia (2001). Additional material was obtained by rearing. For this, samples of closed flowers were collected at the restinga of Barra de Maricá (Maricá, RJ) in April, 2005 and carried to the laboratory of Diptera, where they were kept in plastic pots containing a layer of soil on the bottom (as the larva pupates in the soil) and covered by a fine screening. The pots were checked daily. Adults and pupal exuviae were preserved in 70% ethanol.
'! Submitted on September 28, 2005. Accepted on March 28, 2008.
Later, they were mounted on microscope slides following the methodology of Gacné (1994).
The Cecidomyiidae genera were identified based on the keys of Gacnk (1994).
All material was deposited in the Diptera collection of Museu Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ).
RESULTS
Four species of gall midges (Diptera, Cecidomyiidae) were obtained from the closed flowers of Heteropteris nitida, namely: Clinodiplosis floricola sp.nov., Youngomyia sp., Lestodiplosis sp., and a not determined Cecidomyiidi.
Clinodiplosis floricola sp.nov. is described and illustrated as larva, pupal exuviae, male, and female (Figs.1-20). Youngomyia sp. and Lestodiplosis sp. (probably both new species) are recorded for the first time on this host plant.
Clinodiplosis Kieffer, 1895 is a cosmopolitan genus with 93 known species. Most are fungivorous, but many Neotropical species are phytophagous (GacnÉ, 2004). Twelve species have been recorded from Brazil on Asteraceae (n=3), Lamiaceae (n=1), Melastomataceae (n=1), Moraceae (n=1), Myrtaceae (n=1), Orchidaceae (n=1), Rubiaceae (n=2) and
2? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Entomologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
* E-mail: roberngue(Dyahoo.com.br. * E-mail: maiavcid(acd.ufr;.br.
360 R.NOVO-GUEDES & V.C.MAIA
Verbenaceae (n=2) (Gacnk, 2004). This is the first record on Malpighiaceae.
Youngomyia Felt, 1908 is a genus known from six species. It has been recorded from Neotropical, Neartic and Oriental regions and includes gall forming species and inquilines. Only one species, Youngomyjia pouteriae Maia, 2001 has been recorded from Brazil (Gacné, 2004).
Lestodiplosis Kieffer, 1894 is a cosmopolitan genus with 168 described species. It comprises only predaceous species. Seven species have been recorded from the Neotropical region and a single one is known from Brazil (Gacnk, 2004).
Clinodiplosis floricola sp.nov. (Figs.1-20)
Larva — Body length: 1.90-2.23mm (n=6). Spatula (Fig.1) 2-toothed; length: 0.09-0.12mm (n=6). Sternal papillae asetose, two groups of three lateral papillae on each side of spatula (two pairs setose). Terminal segment (Fig.2): three pairs of corniform papillae and one pair of setose papillae (setal length: 0.03-0.04; n=6).
Pupa -— Length: 1.70-1.92mm (n=3). Head (Fig.3): antenal horn short with 0.015mm of length (n=1); apical seta long (length: 0.07; n=2) (Fig.4); two pairs of lower facial papillae (one asetose and the other setose, setal length: 0.0lImm, n=2) (Fig.5); three pairs of lateral facial papillae, one pair setose and two without seta (Fig.6). Prothoracic spiracle (Fig.7) elongate with 0.25-0.30mm oflength (n=5) and thin. Foreleg sheath reaching the distal margin of abdominal segment 5, midleg sheath reaching basal 1/9 abdominal segment 6 and hindleg sheath reaching the basal 1/3 of abdominal segment 6. Abdominal segments 2-8 with conspicuous spines at basal 1/3, restricted to mesal region; distal spines gradually crescent (Fig.8).
Adult — Head (Fig.9): occipital process present. Eye facets hexagonal, all closely approximated. Antenna: male flagellomeres binodal and tricircumfilar, circumrfila loops regular in length, flagellomere necks subequal to distal node length (Fig.10); female flagellomeres cylindrical with neck well developed, measuring 0.36 times the total length of the flagellomere, female circumfila as two connected horizontal rings (Fig.11). Flagellomere necks bare in both sexes. Flagellomere 12 with apical process, setulose in both sexes. Frontoclypeus with 8 setae (n=8). Labrum triangular, long-attenuate, with 3 pairs of ventral sensory setae. Hypopharynx as long
as labrum, with anteriorly directed lateral setulae. Labella elongate-convex, each with several long lateral setae and two pairs of short mesal sensory setae. Palpus with four crescent cylindrical segments, all with setae (Fig. 12).
Thorax. Wings: length: 1.14-1.67mm (n=6) in male (n=6), 1.6mm in female (n=1); venation (Fig.13): R, as long as 2/5 of wing length, R, present and evanescent, R, curved, joining C beyond wing apex, M, evanescent; CuA forked. Anepisternum bare. Anepimeron with 4-6 setae (n=6). Tarsal claws simple, bent before midlength and irregular in width, abruptally attenuate subapically; empodium short, reaching bent in claws (Fig. 14).
Abdomen. O (Figs.15-16): tergites 1-7 rectangular with a distal row of setae and a basal pair of trichoid sensilla, tergite 8 not sclerotized with only a pair of trichoid sensilla. Sternites 2-7 rectangular with a caudal row of setae, irregular mesal rows of setae and a pair of trichoid sensilla; sternite 8 sclerotized, rectangular, conspicuously shorter than sternite 7, with scattered setae near distal margin and at mesal region and a pair oftrichoid sensilla. Female (Fig. 177): tergites 1-7 rectangular with rounded lateral margin, a caudal row of setae, some lateral setae near mesal region and a pair oftrichoid sensilla; tergite 8 shorter than the precedent, elongate, with a pair of trichoid sensilla and no setae. Sternites 2-7 rectangular, sternite 8 quadrate, with a caudal row of setae, scattered setae at mesal region, lateral setae present and a basal pair of trichoid sensilla. Male terminalia (Fig.18): gonocoxite with mesal lobe; gonostylus about 4/5 of gonocoxite length, thin, regular in width, striate except near basis, basis setulose; cercus setose and secondarily lobed; hypoproct narrow, conspicuously longer than cercus, deeply bilobed, and setose; aedeagus elongate conspicuously longer than hypoproct and rounded at apex. Ovipositor (Fig.19) protrusible, female cerci (Fig.20) elongate-ovoid and setose, with a pair of apical seta stronger than others, female hypoproct narrow, elongate and setose.
Material examined — Holotype, O . BRAZIL, RIO DE JANEIRO: Maricá (Barra de Maricá), 05/VI/1998, V.Maia leg., MNRJ. Paratypes, same locality, date and collector, 2? ; same locality and collector, 28/ 1/1998, 6 larvae; same locality, 20/1X/2000, Maia & Azevedo leg., 26 , 19 , 1 pupal exuviae (slide with more one species); same locality, 30/11/2004, V.Maia leg., 10 larvae; same locality, 11/V/2004, V.Maia leg., 1S, 19 ; same locality, 11/11/2005, V.Maia leg., 36 ; same locality, 16/IV/2005, Guedes & Maia leg., 46, 1? and 2 pupal exuviae, MNRJ.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008
GALL MIDGES ASSOCIATED WITH AH. NITIDA 361
Clinodiplosis floricola sp.nov. - fig.1- larva, prothoracic spatula, sternal and lateral papillae, ventral view; fig.2- larva, segments terminal, dorsal view; fig.3- pupa, head, frontal view; fig.4- pupa, apical seta, dorsal view; fig.5- pupa, lower facial papillae, frontal view; fig.6- pupa, lateral facial papillae, frontal view; fig.7- pupa, prothoracic spiracle; fig.8- pupa, abdominal segment 2, lateral view; fig.9- adult, female head, frontal view; fig.10- adult, male flagellomere 5; fig.11- 2, flagellomere 3; fig.12- 9, palpus; fig.13- 2, wing; fig.14- 2, hindleg, tarsal claw; fig.15- O , abdominal segments 6 to 8, tergites, lateral view. Scale bars: 1, 14=0.02mm; 2, 4, 5=0.10mm; 3=0.30mm; 6, 8, 10, 12=0.05mm; 7, 9, 15=0.20mm; 11=0.03mm; 13=0.50mm; 14=0.02mm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008
362 R.NOVO-GUEDES & V.C.MAIA
Clinodiplosis floricola sp.nov., adults - fig. 16- G , abdominal segments 6 to 8, esternites, lateral view; fig.17- 2 , abdominal segments 5 to end; fig.18- male terminalia, dorsal view; fig. 19- ovipositor, lateral view; fig.20- female cerci and hypoproct, ventral view. Scale bars: 16-17=0.2mm; 18-19=0.Imm; 20=0.05mm.
Etymology — The name floricola refers to the part of the plant where the larva lives.
Remarks — This species is distinctive by the apical process of flagellomere 12 with setulae; tarsal claw simple, bent before midlength and abruptally attenuate subapically; male cerci secondarily lobed and male tergite 8 not sclerotized.
Other material — Youngomyia sp.: BRAZIL, RIO DE JANEIRO: Maricá (Barra de Maricá), 05/VI/1998, V.Maia leg., 20 ; 16/IV/2005, Guedes & Maia leg., 86 , MNRJ.
Lestodiplosis sp.: BRAZIL, RIO DE JANEIRO: Maricá (Barra de Maricá), 05/VI/1998, V.Maia leg., 32 ; 16/IV/2005, Guedes & Maia leg., 19, MNRJ.
Not determined Cecidomyiidi: BRAZIL, RIO DE JANEIRO: Maricá (Barra de Maricá), 16/IV/2005, Guedes & Maia leg., 10, MNRJ.
ACKNOWLEDGEMENTS
We are grateful to Dr. Maria Antonieta Pereira de Azevedo (MNRJ), for help during field work, and Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ -— Proc. 171290/06), for financial support.
REFERENCES
GAGNÉ, R.J., 1994. The gall midges of the Neotropical region. Ithaca: Comstock Cornell University Press, 352p.
GAGNÉÊ, R.J., 2004. A catalog of the Cecidomyiidae (Diptera) of the world. Memoirs of the Entomological Society of Washington 25:408p.
MAIA, V.C., 2001. The gall midges (Diptera, Cecidomyiidae) from three restingas areas of Rio de Janeiro State, Brazil. Revista Brasileira de Zoologia 18(2):583-629.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008
Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008 ISSN 0365-4508
MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA TOWNSEND, 1917 (DIPTERA, SARCOPHAGIDAE):
(Com 20 figuras)
KARLLA PATRÍCIA SILVA 23 CÁTIA ANTUNES DE MELLO-PATIU 24
RESUMO: Muitas espécies de Oxysarcodexia, um dos gêneros neotropicais mais numerosos da família Sarcophagidae, são conhecidas apenas por descrições que não fornecem argumentos suficientes para sua segregação, principalmente pela falta de detalhamento da morfologia da genitália. Um estudo comparativo e minucioso da terminália masculina de O. avuncula, O. confusa, O. diana e O. parva, espécies morfologicamente bastante similares, resultou no levantamento de um conjunto de caracteres que permitem uma melhor segregação das espécies.
Palavras-chave: Sarcophagidae. Oxysarcodexia. Terminália. Morfologia.
ABSTRACT: Comparative morphology of the male terminalia of four species of Oxysarcodexia Townsend, 1917 (Diptera, Sarcophagidae).
Many species of Oxysarcodexia, one of the most numerous neotropical genera of the family Sarcophagidae, are known only by descriptions which do not supply enough arguments for species segregation, mainly by the lack of detailed morphological study of the genitalia. A comparative and elaborate study of the male terminalia of O. avuncula, O. confusa, O. diana and O. parva, species with very similar morphology, has
resulted in the survey of a character set which has allowed the species segregation.
Key words: Sarcophagidae. Oxysarcodexia. Terminalia. Morphology.
INTRODUÇÃO
O gênero Oxysarcodexia Townsend, 1917 está representado por 79 espécies descritas até o momento, a maioria de tamanho médio, frequentemente coprófagas, mas algumas podem ser predadoras (Pare, 1996). Dentre os Sarcophaginae neotropicais, é um dos gêneros com maior número de espécies, com distribuição bastante ampla no Brasil (TiBana & MELLO, 1985; Lores & TiBana, 1987; Pare, 1996).
Embora seja um grupo muito frequente e abundante nas coletas e nas coleções, a diferenciação de muitas espécies é bastante complexa e, frequentemente, as diferenças específicas são limitadas aos caracteres genitais dos machos (Parc, 1996). Estes possuem edeago sempre bem desenvolvido, com basifalo e distifalo unidos. A ventrália (= vesica) se apresenta articulada ou móvel e bastante ornamentada,
! Submetido em 18 de abril de 2007. Aceito em 14 de abril de 2008.
constituída fundamentalmente por uma formação rija inserida na região mediana do edeago, de onde partem expansões lateralmente dirigidas, muitas vezes com bordos dentados ou com outros tipos de ornamentações e/ou formações na forma de lóbulos. A ventrália é uma estrutura com características específicas neste gênero, devido a grande diversidade que apresenta, o que a torna um caráter de estudo essencial para a distinção das espécies de Oxysarcodexia (LorEs, 1946). Elas também apresentam uma estrutura que se desenvolve na parte interna do distifalo, ligando o estilo mediano à base da ventrália, funcionando como uma alavanca para a elevação do estilo mediano durante a cópula (Rosack, 1954). Esta estrutura, denominada por Rosack (1954) como “dorsal roads” e por GuiMaRrÃES (2004) como hastes dorsais, está presente em todos os gêneros da tribo Raviniini, entre eles Oxysarcodexia.
A identificação das espécies de Oxysarcodexia é
2? Museu Nacional, Departamento de Entomologia, Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
* E-mail: karlla-patricia(dbol.com.br. * E-mail: camello(dacd.ufr;.br.
364 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU
muito complexa e, para Lores (1946), algumas apresentam similaridade morfológica marcante, especialmente quanto à forma do edeago. As informações sobre distribuição geográfica podem algumas vezes auxiliar nestes casos, quando as espécies envolvidas na identificação ocorrem em regiões ou ambientes distintos.
Nesse contexto, Oxysarcodexia parva Lopes, 1946, O. confusa Lopes, 1946, O. avuncula (Lopes, 1933) e O. diana (Lopes, 1933), constituem um grupo de espécies com edeago muito similar, simpátridas e atraídas pelas mesmas iscas (LOPES, 1946). As quatro espécies ocorrem ao longo da América do Sul, com registros desde o México até a Argentina e, mais especificamente no Brasil, ocorrem do Ceará até Santa Catarina, incluindo os estados da região Centro-Oeste (Park, 1996). Logo, sabendo que os estudos até hoje realizados não fornecem argumentos suficientes para distinção entre elas, ressalta-se a importância de uma revisão da morfologia da terminália masculina que conduza ao levantamento dos caracteres diferenciais e ao fornecimento de dados para a identificação mais segura.
MATERIAL E MÉTODOS
Para estudo da terminália foram realizadas dissecções dos segmentos genitais, na altura do protândrio. Para a diafanização, o material foi colocado em solução aquosa de hidróxido de potássio (KOH) a 10%, aquecido em banho-maria por cerca de cinco minutos, e passado pela seguinte sequência: água destilada, ácido acético a 50%, água destilada e etanol comercial 96ºGL. A terminália foi transferida para lâmina contendo glicerina não-hidratada, protegida por lamínula, e foram observadas e ilustradas através de estereomicroscópios e microscópios ópticos providos com câmara-clara. Ao final do estudo, cada peça foi depositada em tubo plástico pequeno contendo glicerina, alfinetado ao seu respectivo espécime.
A terminologia adotada para as estruturas gerais da terminália segue McALrPINE (1981), para as estruturas do edeago seguiu-se LorES & TiBaNA (1987), exceto estilos laterais e medianos usados como em MELLO-PariU & PaPE (2000). Todo o material utilizado neste estudo pertence à coleção do Museu Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ), Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, Brasil. RESULTADOS
Oxysarcodexia avuncula (Lopes, 1933) (Figs.1-5)
Sarcophaga avuncula Lopes, 1933:156.
Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro, Manguinhos. Lopes, 1939:119.
Oxysarcodexia avuncula; Lopes, 1946:98; Lopes & Tibana, 1987:330.
Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio castanhos, cobertos com polinosidade dourada na região dorsal; sintergosternito 7+8 com seis cerdas pré-apicais bem desenvolvidas em série e cerdas esparsas pouco desenvolvidas, mais robustas na região dorsal; cerco curto, castanho- avermelhado, com ápice truncado e apicalmente enegrecido, apresentando largura similar à base em vista posterior, com cerdas pouco desenvolvidas e com uma pequena dobra apical esclerosada em vista lateral (Figs.1-3); surstilo claviforme, ápice com poucas cerdas próximas a margem (Fig.1); parâmero alongado, pouco menor que o gonópodo, com uma cerda mediana lateral pouco desenvolvida; gonópodo robusto com extremidade pontiaguda, apresentando uma reentrância na região mediana (Fig.1); edeago castanho, mais esclerosado na região apical, basifalo e distifalo fundidos apresentando uma cicatriz na região da união (Figs.1,4); estilos laterais com base arredondada, apresentando uma projeção lateral e com ápices afilados, com ornamentações espinhosas pouco desenvolvidas e projetados paralelamente; estilo mediano em forma de calha, com metade do tamanho dos estilos laterais (Fig.5); hastes dorsais presentes, ligando o estilo mediano à base da ventrália; ventrália esclerosada e articulada com o distifalo, região mediana da face ventral membranosa, ápice com dois lóbulos laterais muito espinhosos e com porção membranosa, apresentando entre eles uma formação esclerosada e levemente denteada na face ventral (Figs.1, 4-5).
Material examinado — BRASIL: MINAS GERAIS, Cambuquira, 16, 08/X1I/1969, H.Hebert col. ESPÍRITO SANTO, Linhares, 40, VII/1972, P.C.Elias col.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 365
Oxysarcodexia avuncula (Lopes, 1933): fig.1- terminália, vista lateral; fig.2- cerco, vista posterior; fig.3- cerco, vista lateral, fig.4- edeago, vista lateral; fig.5- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral; (em) estilo mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas = 0, Imm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
366 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU
Oxysarcodexia confusa Lopes, 1946 (Figs.6-10)
Oxysarcodexia confusa Lopes, 1946:96.
Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Miguel Pereira. Lopes & Tibana, 1987:332.
Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio castanhos cobertos de polinosidade dourada na região dorsal; sintergosternito 7+8 com oito cerdas pré-apicais bem desenvolvidas em série e cerdas esparsas pouco desenvolvidas, mais robustas na região dorsal; cerco castanho com ápice enegrecido, apresentando-se reentrante na região mediana e muito divergente na metade apical, em vista posterior (Fig.7), ápice pontiagudo com uma projeção lateral dobrada, em vista lateral (Fig.8), base bem mais larga que o ápice, com cerdas longas e robustas densamente dispostas (Figs.7-8); surstilo claviforme com poucas cerdas próximas à margem apical (Fig.6); parâmero alongado, pouco menor que o gonópodo, sem a longa cerda mediana usual; gonópodo com extremidade pontiaguda e esclerosada (Fig.6); edeago castanho-avermelhado, mais esclerosado na região apical, basifalo e distifalo fundidos apresentando uma cicatriz evidente na região da união (Fig.6); estilos laterais com base arredondada, ápices curtos, apresentando ornamentações espinhosas; estilo mediano em forma de calha, bem maior que os estilos laterais e com ornamentações escamosas e pilosidade na região basal; hastes dorsais presentes, ligando o estilo mediano à base da ventrália (Fig.10); ventrália bastante esclerosada e curta, ricamente ornamentada com placas escamosas por toda extensão, ápice com dois lóbulos laterais esclerosados com formações escamosas intensamente dispostas e com uma pequena projeção mediana distal entre eles, base com uma formação membranosa na articulação com o distifalo (Figs.6, 9-10).
Material examinado — BRASIL: MINAS GERAIS, Cambuquira, 26 , 08/X1I/1969, H.Hebert col.; RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro, Alto da Boa Vista, 16, 05/IV/1984, H.Guimarães col.; Petrópolis, 16, 13/11/1972, H.S.Lopes col. PARANÁ, Castro, 10, 09/1/1972, H.S.Lopes col.; SANTA CATARINA, São Bento do Sul, 20, 06/ XI[/1969, H.Hebert col.
Oxysarcodexia diana (Lopes, 1933) (Figs.11-15)
Sarcophaga diana Lopes, 1933:156.
Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro. Lopes, 1939:119.
Oxysarcodexia diana; Lopes, 1946:98; Lopes & Tibana, 1987.
Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio castanhos cobertos de polinosidade dourada na região dorsal; sintergosternito 7+8 com oito cerdas pré-apicais bem desenvolvidas em série e cerdas esparsas pouco desenvolvidas, mais robustas na região dorsal; cerco castanho, com ápices esclerosados e escurecidos, apresentando- se levemente reentrante abaixo da região mediana, em vista posterior, ápice com uma projeção lateral dobrada apicalmente e com cerdas esparsas pouco desenvolvidas, base larga com cerdas longas e robustas densamente dispostas (Figs.11-13); surstilo claviforme com poucas cerdas próximas à margem apical e superfície interna apresentando uma pequena peça esclerosada semitriangular (Fig.11); parâmero alongado com tamanho similar ao gonópodo e com uma cerda mediana lateral pouco desenvolvida; gonópodo esclerosado com extremidade arredondada (Fig.11); edeago castanho escuro, mais esclerosado na região apical, basifalo e distifalo fundidos apresentando uma cicatriz na região da união (Figs.11,14); estilos laterais com bases arredondadas e com projeção alongadas e denteadas, ápices afilados, com espinhos laterais; estilo mediano em forma de calha, localizado pouco acima dos estilos laterais e com pequenas ornamentações escamosas e pilosidades na região basal (Fig.18); hastes dorsais presentes, ligando o estilo mediano à base da ventrália; ventrália curta e mais esclerosada na região basal, apresentando ornamentações escamosas a partir da região mediana até o lóbulos apicais, ápice dividido em dois lóbulos arredondados, inteiramente membranosos, que se dobram lateralmente e apresentam entre si uma formação esclerosada e pontiaguda ventral (Figs.11, 14-15).
Material examinado — BRASIL: RIO DE JANEIRO, Angra dos Reis, 26, 03/XI/1971, H.S.Lopes col.; SÃO PAULO, São Paulo, Butantã, 26, O01/IX/ 1971, L.F.Travassos col.; 10, 03/VIII/1971, L.F.Travassos col.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 367
Oxysarcodexia confusa Lopes, 1946: fig.6- terminália, vista lateral; fig.7- cerco, vista posterior; fig.8- cerco, vista lateral, fig.9- edeago, vista lateral; fig.10- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral; (em) estilo mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas = 0, Imm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
368 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU
di
Oxysarcodexia diana (Lopes, 1933): fig.11- terminália, vista lateral; fig.12- cerco, vista posterior; fig.13- cerco, vista lateral, fig. 14- edeago, vista lateral; fig.15- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral; (em) estilo mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas: 11, 14-15 = 0,Imm; 12-13 = 0,05mm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 369
Oxysarcodexia parva Lopes, 1946 (Figs.16-20)
Oxysarcodexia parva Lopes, 1946:97.
Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro, Grajaú. Lopes & Tibana, 1987:332.
Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio castanhos cobertos de polinosidade dourada na região dorsal; sintergosternito 7+8 com oito cerdas pré-apicais bem desenvolvidas em série e cerdas esparsas pouco desenvolvidas, mais robustas na região dorsal; cerco castanho-avermelhado, com ápice negro, em vista posterior apresentando uma reentrância conspícua pouco abaixo da região mediana, ápice convergente com pequenas cerdas densamente dispostas e com uma pequena projeção arredondada lateral, base larga com cerdas longas e robustas densamente dispostas (Figs.16-18); surstilo claviforme com ápice apresentando poucas cerdas próximas à margem (Fig.16); parâmero alongado, com cerca da metade do tamanho do gonópodo, com uma cerda mediana lateral pouco desenvolvida; gonópodo bem desenvolvido com a extremidade pontiaguda e esclerosada (Fig.16); edeago castanho, mais esclerosado na região apical, basifalo e distifalo fundidos apresentando uma cicatriz na região da união (Fig. 16); estilos laterais com bases arredondadas com ápices afilados e projetados paralelamente; estilo mediano em forma de calha, com tamanho similar ao estilo lateral e com ornamentações escamosas na região basal; hastes dorsais presentes, ligando o estilo mediano à base da ventrália (Figs.19-20); ventrália esclerosada e articulada com o distifalo, região mediana ornamentada com placas escamosas laterais e face ventral membranosa, ápice dividido em dois pequenos lóbulos, parcialmente membranosos, que se dobram lateralmente, apresentando entre eles, na face ventral, uma formação esclerosada e denteada (Figs.16, 19-20).
Material examinado — BRASIL: RIO DE JANEIRO, Angra dos Reis, 26 , 05/VII/1971 e 19/VIII/1972, H.S.Lopes col.; Rio de Janeiro, Alto da Boa Vista, 1S, 02/11/1984, H.Guimarães col. (MNRJ); SÃO PAULO, São Paulo, Butantã, 10, 27/VI/1971, L.F.Travassos col.
DISCUSSÃO
LorEs (1946), ao fornecer uma chave para identificação dos machos de Oxysarcodexia, diferenciou O. parva e
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
O. diana das demais espécies por apresentarem os ápices dos cercos não divergentes. Ao analisar os cercos em ambas espécies, observou-se que esta característica se confirma. O cerco de O. parva também apresenta uma considerável reentrância lateral pouco abaixo da região mediana e uma pequena projeção arredondada lateral no ápice, em vista posterior (Fig.18). Em O. diana, o cerco apresenta uma dobra lateral esclerosada muito peculiar (Figs.11-12). Lopes (1946) descreveu o cerco de O. confusa como apresentando o ápice pouco divergente. Após análise desta estrutura, verificou- se que o cerco desta espécie se apresenta fortemente divergente na região apical, capaz de distinguií-la das demais (Fig.7). As considerações daquele autor quanto às características do cerco de O. avuncula se confirmam neste estudo, com cerco curto com ápice alargado (Fig.2).
LorEs & TiBANA (19877), em uma chave ampliada para o gênero Oxysarcodexia, ressaltaram as seguintes características da ventrália: presença de lóbulos terminais arredondados e bem visíveis para O. parva e lóbulos da ventrália vestigiais para O. diana. LorEs (1946) havia caracterizado esta estrutura apenas como pequena e membranosa para ambas as espécies. Examinando a ventrália destas espécies, verificou-se que ambas apresentam a estrutura ornamentada por placas escamosas laterais na região mediana (Figs.14,19), sendo que em O. parva a ventrália possui face ventral membranosa e ainda presença de uma formação esclerosada e denteada entre dois lóbulos parcialmente membranosos, que se dobram lateralmente (Figs.16,19-20). Em O. diana, os lóbulos são globulares, inteiramente membranosos com uma formação esclerosada e pontiaguda entre eles (Figs.11,14-15). Quanto à ventrália de O. confusa, Lopes (1946) diferenciou a estrutura como sendo pequena e muito espinhosa e LorEs & TiBaNa (1987) a caracterizaram como apresentando apenas lóbulos apicais reduzidos. Observou-se que a ventrália é ricamente ornamentada com placas escamosas bem desenvolvidas por toda sua extensão, apresentando uma formação membranosa na articulação com o distifalo e possuindo lóbulos muito esclerosados e escamosos (Figs.6,9-10). Sobre a ventrália de O. avuncula, LorEs (1946) descreveu a estrutura como apresentando lóbulos reduzidos e espinhosos. Neste trabalho, observou-se que a ventrália de O. avuncula é bastante esclerosada, apresentando a região mediana ventralmente membranosa e a região distal com dois lóbulos muito espinhosos, parcialmente membranosos, e uma formação esclerosada e denteada entre eles (Figs.1,4-5).
370 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU
16 17
Oxysarcodexia parva Lopes, 1946: fig. 16- terminália, vista lateral; fig.17- cerco, vista posterior; fig. 18- cerco, vista lateral, fig. 19- edeago, vista lateral; fig.20- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral; (em) estilo mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas = O, Imm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 371
LorEs (1946) relacionou O. parva como uma espécie muito próxima de O. diana, distinguindo-se apenas por características do ápice do cerco e, principalmente, pela diferença no tamanho da ventrália. Analisando ambas as terminálias, admite-se que estas espécies são morfologicamente muito próximas, podendo ser segregadas pelas peculiaridades do ápice do cerco em vista posterior e pela presença da formação esclerosada e denteada entre os lóbulos da ventrália em O. parva (Figs.17,19) e esclerosada e pontiaguda em O. diana (Figs.12,14).
Lores (1946) também evidenciou semelhanças entre O. confusa e O. diana, distinguindo-as pelo aspecto do ápice do edeago, da ventrália e pelos ápices dos cercos. No presente estudo, considera-se O. confusa mais próxima morfologicamente de O. parva, pois
apresenta grande similaridade na ornamentação da ventrália, formato do ápice do edeago e disposição das suas estruturas internas.
Oxysarcodexia avuncula foi relacionada em LorES (1946) como uma espécie nitidamente afim de O. parva, O. confusa e O. diana, distinguindo-se apenas pela forma achatada do cerco, característica também observada por LorEs & TiBana (1987). Após este estudo considerou-se esta espécie mais próxima morfologicamente de O. confusa pelas características da ventrália (Figs.1,4).
Em complemento à chave fornecida por Lopes & TiBana (1987), alguns outros caracteres lhe são acrescentados. Os passos da chave são apresentados abaixo com seus números originais, complementados com as observações resultantes deste estudo (sublinhadas):
9. Cerco fortemente truncado no ápice em vista posterior. Ventrália apresentando ápice dividido em dois lóbulos globulares distais muito espinhosos e parcialmente membranosos, apresentando entre eles uma formação esclerosada e levemente denteada ................. O. avuncula (Lopes, 1933)
53. Abdome com polinosidade cinza, lóbulos terminais da ventrália arredondados bem visíveis,
ornamentados com placas escamosas e apresentando entre eles uma formação esclerosada e denteada na face ventral. Ápice do cerco não divergente, com profunda reentrância lateral em
VISTO SECLLOL MO rota nar h o RA copa renR do Misa DUNA ATER coçar
ER ORI END o DA O CDU O. parva Lopes, 1946
Abdome com polinosidade dourada no quinto tergito, algumas vezes com abdome completamente
coberto por polinosidade cinza amarelado. Lóbulos da ventrália globulares e completamente membranosos, ornamentados com placas escamosas, com uma formação esclerosada e
pontiaguda entre eles na face ventral ...................
sc RD, 8 = a MD O. diana ( Lopes, 1933)
59. Ventrália com lóbulos apicais reduzidos. Ápices dos cercos muito divergentes apresentando uma reentrância logo abaixo da região mediana em vista posterior e uma formação pontiaguda
apical. emmuistastateral 2º, Seas nica toa A span a dora
REFERÊNCIAS
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Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.373-379, abr./jun.2008 ISSN 0365-4508
FIRST RECORD OF EURYTHENES OBESUS (CHEVREUX, 1905) (AMPHIPODA, LYSIANASSOIDEA, EURYTHENEIDAE) IN BRAZILIAN WATERS ! (With 2 figures)
ANDRÉ R. SENNA ?º CRISTIANA S. SEREJO 2
ABSTRACT: Currently, 14 lysianassoid species are known from the Brazilian waters. Material collected from the Campos Basin, off Rio de Janeiro State, Brazil, during the “Campos Basin Deep-Sea Environmental Project” coordinated by CENPES/PETROBRAS were analyzed. The samples were collected using a semi- balloon door trawl at 1300 and 1608 m depth, aboard of the N/R Astro Garoupa. Eurythenes obesus (Amphipoda: Lysianassoidea: Eurytheneidae) was found in these samples and is herein redescribed. The species is widely distributed around the world, but there are no previous records of this species from Brazilian waters.
Key words: Amphipoda. Eurythenes obesus. Campos Basin. Deep-sea. Brazil.
RESUMO: Primeiro registro de Eurythenes obesus (Chevreux, 1905) (Amphipoda, Lysianassoidea, Eurytheneidae) para as águas brasileiras.
Atualmente são conhecidas 14 espécies de lysianassoides para as águas brasileiras. Foi analisado material coletado na Bacia de Campos, ao largo do Estado do Rio de Janeiro, Brasil, como resultado do projeto “Caracterização Ambiental de Águas Profundas da Bacia de Campos” coordenado pelo CENPES/PETROBRAS. As amostras foram coletadas por arrasto usando uma rede de porta do tipo Semi-Balloon a 1300 e 1608m de profundidade, abordo do N/R Astro Garoupa. Eurythenes obesus (Amphipoda: Lysianassoidea: Eurytheneidae) foi encontrada nessas amostras e é aqui redescrita. Muito embora essa espécie tenha distribuição mundial, não há registros anteriores para as águas brasileiras.
Palavras-chave: Amphipoda. Eurythenes obesus. Bacia de Campos. Mar profundo. Brasil.
INTRODUCTION
This study is part of the “Campos Basin Deep-Sea Environmental Project” which has the purpose to make an environmental characterization of the Campos Basin deep-sea area, between 700 and 2,000m depth, off north of Rio de Janeiro State. The knowledge of Crustacea, as well as other benthos groups of this area, is important for monitoring programs implemented by the Brazilian oil company - PETROBRAS. The Campos Basin is about 100,000m* in area and is the largest petroleum reserve in Brazilian waters. About 65% of the exploratory camps of PETROBRAS are offshore, above 400m depth (www2.petrobras.com.br/Petrobras / portugues /plataforma/pla bacia campos.htm).
The superfamily Lysianassoidea is very abundant and diverse in shallow and deep-sea water (BOUSFELD,
'! Submitted on April 16, 2006. Accepted on April 14, 2008.
1982), but there are few records of this group from the Brazilian coast. Currently, only 14 lysianassoid species are known from Brazilian waters (WAkABARA & SEREJO, 1998; SEREJO && WAKABARA, 2003; FREIRE & SEREJO, 2004; SErEJO et al., 2007a, Db; SENNA & SEREJO, 2007, 2008). Recently, the group was studied based on the material of REVIZEE Benthos Program which results in five new species (SENNA, 2006). Information on distribution of these species will be given here.
The family Eurytheneidae Stoddart & Lowry, 2004 contains only the genus Eurythenes Smith, 1882, including three species: Eurythenes gryllus (Lichtenstein in Mandt, 1822), E. obesus (Chevreux, 1905), and E. thurstoni Stoddart & Lowry, 2004. Eurythenes gryllus and E. obesus are cosmopolitan, scavengers or carnivorous, and usually they are bathy- to abyssopelagic (BousrieLD, 1982: BARNARD & KaraMaN, 1991). Eurythenes thurstoni is recorded from
2? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Invertebrados. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
* E-mail: ar. senna(Mhotmail.com.
374 A R.SENNA & C.S.SEREJO
SE Indian Ocean, Gulf of Mexico, and Caribbean Sea and is an epibenthic scavenger or perhaps a midwater predator or scavenger (STODDART & LOWRY, 2004). These species are thought to be epibenthic scavengers since they have been captured in baited traps. However, knowledge about the life habits of E. obesus is still scarce when compared to the other two species. This species has frequently been taken in mid-water trawls which suggests it is a pelagic predator (STODDART & Lowry, 2004).
In this paper, E. obesus is recorded for the first time from off the Brazilian coast, extending its distribution to these waters.
MATERIAL AND METHODS
The studied area comprises the north and south regions of the Campos Basin, off Rio de Janeiro State (21º48'S-22º48'S), between the isobaths of 700m and 2000m.
The collections were made with a Semi-Balloon door trawl, with 5mº of opening, aboard ofthe N/R “Astro Garoupa”, in two campaigns. The first campaign was in February 2003 and the second campaign was in August 2003. The trawls were made over 1.5 hours and 1.8 knot speed, approximately. The samples were preserved in ethanol 70%.
Specimens were dissected under a stereoscope microscope and the drawings were made with a camera lucida. All the material is deposited in the Crustacean Collection - Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro (MNRJ).
Photograph of figure 1 was taken with a Digital Camera Nikon Coolpix 5400, 5.1 Mega Pixels, at the Sector of Carcinology, MNRJ.
The nomenclature of the setal-teeth of the maxilla 1 outer plate is based on Lowry & STODDART (1992: 1993). Abbreviations: Hd: Head; Mx1l: Maxilla 1; Mx2: Maxilla 2; Gn1: Gnathopod 1; P7: Pereopod 7; Ep3: Epimeral plate 3; U3: Uropod 3; ST: Setal-teeth.
TAXONOMY
Order Amphipoda Latreille, 1816 Superfamily Lysianossoidea Dana, 1849 Family Eurytheneidae Stoddart & Lowry, 2004 Genus Eurythenes Smith, 1882
Diagnosis — Head exposed, much deeper than long, not extending much below insertion of antenna 2,
without cheek notch. Antennae with calceoli present in male, absent in female. Antenna 1 with well developed two-field callynophore in both sexes. Mouthpart bundle subquadrate. Epistome and upper lip separate. Right mandible without lacinia mobilis. Mandibular incisor present, smooth, and convex. Accessory setal row without distal tuft of setae. Molar with a small triturative surface. Maxilla 1 inner plate with more than two apical pappose setae; outer plate narrow with setal-teeth (ST) large, in 8/3 crown arrangement; ST6 and STY7 slender, ST7 slightly displaced from ST6. Inner plate of maxilla 2 much shorter than outer plate. Maxilliped palp 4-articulate, article 4 well developed. Gnathopod 1 subchelate or parachelate, coxa vestigial, carpus short, propodus large, palm straight to convex. Coxa 2 shorter than coxa 3. Coxa 4 large with well developed posterodistal lobe. Coxa 5 with anterior and posterior lobes subequal. Uropod 2, inner ramus without constrinction. Uropod 3 biramous. Telson deeply cleft (modified from SropDART & Lowry, 2004).
Eurythenes obesus (Chevreux, 1905) (Figs.1-2)
Katius obesus CHevrEUXx, 1905:1; 1935:63;
K.H.BARNARD, 1932:56.
Eurythenes obesus - ScHELLENBERG, 1955:183, 192; SHOEMAKER, 1956:178. J.L.BaRrNARD, 1958:92; 1961:38; HurLey, 1963:59; Brusca, 1967:384; BELLAN-SANTINI & LEDOYER, 1974:681; Lowry & BuLLock, 1976:89; Ortiz, 1979:19; BAaRNARD & KarAaMAN, 1991:486; THurstTON & BeTT, 1995:201; STODDART & Lowry, 2004:445 (with complete synonymy).
Type-locality — NE of Cabo Verde Islands, eastern North Atlantic Ocean, 20º1.8'N 21º19.8W - 20º1.3'N 21º20.0W, 995-1,500m over bottom depth 3,800-3,850m.
Material examined — BRAZIL, OFF RIO DE JANEIRO STATE, Campos Basin Deep-Sea Environmental Project, N.R Astro Garoupa col.; 1S, 42.0mm, 22º15,209'S-39º47,690W, 1,608m depth, February 12, 2003, MNRJ 19271; 10, 78.6mm, 22º15,49'S- 39º47,450'W, 1,300m depth, August 22, 2008, MNRJ 19451.
Diagnosis — Anterodorsal margin of head smooth. Gnathopod 1 parachelate, basis length 2 to 2.5 times its breadth, propodus slightly tapering distally. Pereopods 3-7, dactyli long. Pereopod 7, basis with posteroventral margin rounded, and length of anterior margin subequal to breadth.
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Fig.1- Eurythenes obesus, S, 78.6mm, 22º15,49'S — 39º47,450'W, 1300m depth, MNRJ 19451. Scale bar = 10mm.
Epimeral plate 3, posteroventral corner subquadrate. Urosomite 1 not dorsodistally produced over urosomite 2. Uropod 3 peducle, medial face with or without robust setae (modified from SrTODDART & Lowry, 2004).
Description - O, 78.6mm. Head deeper than long, anterodorsal margin smooth; lateral cephalic lobe small, subacute; rostrum absent; eyes little apparent. Antenna 1 short. Antenna 2, 2 times antenna 1.
Mouthpart bundle subquadrate. Epistome and upper lip separate. Mandible, accessory setal row with nine blunt robust setae, molar large, setose, with a distal triturating surface. Maxilla 1, inner plate small; outer plate with 11 setal-teeth in 8/3 crown arrangement; ST1 to STY large and slender, ST1i and ST2 non-cuspidate, ST3 and ST4 3- cuspidate, ST5 5-cuspidate, ST6 4-cupidate, STY7 slightly displaced from ST6; STA to STD large and broad, STA 1-cuspidate, STB 3-cupidate, STC 5- cuspidate, and STD 7-cuspidate; palp large, 2- articulate. Maxilla 2, inner plate broad, length 0.75 times outer plate, inner margin slightly concave.
Pereonites 1-2 dorsally smooth; pereonites 3-7 with dorsal sharp ridge. Gnathopod 1 parachelate; coxa small; basis slender, length 2.5 times breadth,
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anterior margin smooth, with a row of small slender setae, posterior margin with a tuft of slender setae distally; ischium short, length 1.3 times breadth, posterior margin setose; merus, length 1.3 times breadth, posterior margin setose; carpus subtriangular, with a tuft of slender setae anterodistally, length 1.1 times breadth; propodus large, length 2.25 times breadth, subrectangular, slightly tapering distally, anterior margin with tufts of slender setae, posterior margin setose, palm transverse, palmar corner with one medial and one lateral stout seta; dactylus simple, smooth, longer than palm, outer margin with one single slender seta. Gnathopod 2, coxa small, longer than coxa 1, ischium, carpus and propodus long, palm transverse; dactylus shorter than palm. Pereopods 3-7, dactyli long. Pereopod 4, coxa with large posteroventral lobe. Pereopod 7, basis expanded posteriorly, posterodistal lobe well-developed, posterior margin minutely serrate, posteroventral corner subquadrate, posteroventral margin straight, length of anterior margin subequal to breadth; merus expanded posteriorly, anterior margin with four tufts of setae; carpus, anterior margin with four tufts of setae; propodus, anterior margin with six tufts of slender setae.
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Pleonites 1-3 with dorsal sharp ridge. Pleonite 3 with anterodorsal notch. Epimeral plate 3, ventral margin minutely setose; posteroventral corner subquadrate. Uropods 1-2, rami subequal in length. Uropod 3, peduncle short, length 1.5 times breadth, without dorsolateral flange, medial face without robust setae; rami, dorsal margin setose, inner ramus 0.9 times outer ramus; outer ramus 2-articulate, article 2 short. Telson longer than broad, deeply cleft, tapering distally.
Distribution — Eurythenes obesus is a cosmopolitan species, recorded from North and South Atlantic, Indian Ocean, North Pacific, Australia, and Brazil, off Rio de Janeiro State.
Remarks — The material examined has the diagnostic characters for the species: anterodorsal margin of head smooth, propodus of gnathopod 1 slightly tapering distally, dactyli of pereopods 3-7 long, basis of pereopod 7 with length of anterior margin subequal to breadth, and urosomite 1 not dorsodistally produced over urosomite 2 (Fig.2).
Fig.2- Eurythenes obesus, OS, 78.6mm, 22º15,49'S — 39º47,450”W, 1300m depth, MNRJ 19451. Scale bars = Imm.
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FIRST RECORD OF E. OBESUS IN BRAZILIAN WATERS 37 7
However, some differences were noticed when compared with the material described by STODDART & Lowry (2004) from Cabo Verde and designate as the neotype for E. obesus.
The pattern of cuspidation on the setal-teeth of the outer plate of maxilla 1 in the Brazilian specimens is not the same as the neotype material. The number of cusps on each setal-tooth in the Brazilian material is lesser, with ST1 and ST2 non-cuspidate (versus ST1i and ST2 3-4 cuspidate); ST3 and ST4 3- cuspidate (versus ST3 and ST4 4-cuspidate); STA l-cuspidate (versus STA 2-cuspidate); STB 3- cupidate (versus STB 5-cuspidate); STC 5-cuspidate (versus STC 7-cuspidate); and STD 7-cuspidate (versus STD 8-cuspidate). This variation has been noticed in other lysianassoid species, such as E. gryllus (STODDART & Lowry, 2004). The Milne-Edwards” specimen and the Lilljeborg's specimen described by SroDDART & Lowry (2004) have different patterns of cuspidation on the maxilla 1 setal-teeth.
The number of setae in the accessory setal row of the mandible differs between the Brazilian and the neotype material: nine blunt robust setae (versus 10 acute robust setae).
The length of the posteroventral lobe on basis of pereopod 7 also varies. The material described by STODDART & Lowry (2004) has the posteroventral lobe
developed about one third the length of the merus, whereas the same lobe on the Brazilian material does not surpass the ischium-merus articulation. Another character which differs in the Brazilian material is the naked medial surface of the uropod 3 peduncile. The Cabo Verde material has the uropod 3 peduncle bearing four apical and three medial robust setae on the medial surface, and the diagnosis has been modified in this aspect.
The described specimen is notable in having 78.6mm length. The larger specimen of E. obesus recorded until now is a female with 80 mm length, from Australia (STODDART & Lowry, 2004).
DISCUSSION
The family Eurytheneidae, represented by E. gryllus, was first recorded recently in Brazil (SEREJO et al., 2007b). Species of this family are typically large (2-25cm), and can be collected with deep-sea dredges or baited traps.
Knowledge of the faunistic composition of the superfamily Lysianassoidea in the Brazilian deep-sea is still scarce. With this record, the number of known species from Brazil is raised to 15 species, eight from deep-sea and seven from shallow waters (Tab.1).
TABLE 1. Lysianassoids known from Brazil.
SPECIES BRAZILIAN WORLD DEPTH REFERENCE DISTRIBUTION DISTRIBUTION FOR BRAZIL Family Amaryllididae Amaryllis atlantica Senna & Serejo, 2008 BA, ES Brazil 40-65m SENNA & SEREJO, 2008 Family Aristiidae Perrierella audouiniana (Bate, 1857) SP Atlantic; Shallow water ' VALÉRIO-BERARDO, 1992 Mediterranean; Brazil Family Eurythenidae Eurythenes gryllus (Lichtenstein, 1822) BA, ES Cosmopolitan 1089-1730m — SEREJO et al., 2007b E. obesus (Chevreux, 1905) RJ Cosmopolitan 1300-1608m Present study Family Lysianassidae Bonassa brasiliensis Senna & Serejo, 2008 BA Brazil Om SENNA & SEREJO, 2008 Lysianassa brasiliensis (Dana, 1853) RJ Brazil Shallow water DANA, 1853; BATE, 1862 Lysianassa danai Senna & Serejo, 2008 Lysianopsis concavus Senna, 2007 BA, ES Brazil 20-108m SENNA, 2007; SENNA & SEREJO, 2008 Schoemakerella nasuta (Dana, 1853) RJ Brazil Shallow water DANA, 1853; STEBBING, 1906 Family Trischizostomidae Trischizostoma costai Freire & Serejo, 2004 ES Brazil 1364m FREIRE & SEREJO, 2004 T. denticulatum Ledoyer, 1978 ES Southwest Indian, off 910-1642m FREIRE & SEREJO, 2004 Madagascar; Brazil T. longirostrum Chevreux, 1919 BA, ES N. Atlantic; Brazil 1002-2076m FREIRE & SEREJO, 2004 T. raschi Boeck, 1861 BA, ES N. Atlantic; 922-1026m FREIRE & SEREJO, 2004 Mediterranean; Brazil T. richeri Lowry & Stoddart, 1994 BA Southwestern Pacific; 599m FREIRE & SEREJO, 2004
Brazil Family Uristidae
Stephonyx uncinatus Senna & Serejo, 2007 BA Brazil 6877-739 SENNA & SEREJO, 2007 States: (BA) Bahia; (ES) Espírito Santo; (RJ) Rio de Janeiro; (SP) São Paulo.
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Five new species were recorded by Senna (2006), two of them described by Senna (2007) and Senna & Serejo (in press). The other three species, two of the family Lysianassidae and one Amaryllididae are being prepared to be published, that will be one more contribution to knowledge of the lysianassoid Brazilian fauna.
ACKNOWLEDGEMENTS
We thank CENPES-Petrobras (Centro de Pesquisas - Petróleo Brasileiro S/A) for providing the material and fellowship. We also thank FUJB (Fundação Universitária José Bonifácio) for financial support.
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Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 ISSN 0365-4508
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL:
(Com 8 figuras)
SALVATORE SICILIANO?
NEUSA RENATA EMIN-LIMA? ALEXANDRA F. COSTA?
ANGÉLICA L. F. RODRIGUES? FAGNER AUGUSTO DE MAGALHÃES? CAROLINA H. TOSI*
ROSANA G. GARRI
CLAUDIA REGINA DA SILVAº
JOSÉ DE SOUSA E SILVA JÚNIOR?
RESUMO: A costa norte do Brasil representa uma nova fronteira para o avanço do conhecimento sobre a fauna de mamíferos aquáticos. A ausência de dados pretéritos sobre os mamíferos aquáticos nessa região e a própria dificuldade logística de monitoramento resultou, até muito recentemente, numa lacuna de conhecimento. A fim de reverter este quadro, o Projeto Piatam Oceano vem incentivando a formação de grupos de pesquisa sobre mamíferos aquáticos da costa amazônica. Como resultado dos esforços recentes, foi reunido um conjunto relevante de informações inéditas ou complementares sobre as 22 espécies de mamíferos aquáticos registradas até o momento na região. Destacam-se as áreas de ocorrência do peixe-boi-marinho no litoral dos Estados do Maranhão, Pará e Amapá, as quais poderiam garantir a manutenção destas populações criticamente ameaçadas. Merece destaque ainda a ocorrência do boto-cinza em toda costa amazônica e sua problemática de interação com a pesca artesanal e o comércio de peças anatômicas. Sugere-se uma ampla campanha de conscientização e a promoção de campanhas educativas visando uma nova tomada de atitude em relação aos mamíferos aquáticos e seus hábitats, respeitando os valores tradicionais e o conhecimento etnoecológico das comunidades costeiras.
Palavras-chave: Mamíferos aquáticos. Costa norte. Conservação. Brasil.
ABSTRACT: Review on the knowledge about aquatic mammais of the north coast of Brazil.
The Brazilian north coast represents a new frontier in several fields of knowledge. The aquatic mammals of the Brazilian northern coast were poorly studied until recently. Recent efforts promoted by Projeto Piatam Oceano are changing the scenario. New research groups on aquatic mammals were formed and are conducting a large survey of this unique group of mammails. A total of 22 species of aquatic mammals were recorded along the Brazilian northern region. It should be emphasized the rediscovery of the Antillean manatee in several localities along the coasts of Amapá, Pará and Maranhão states. On the other hand, the estuarine dolphin is widely distributed along the Amazonian coast but is frequently by-caught in gill nets fisheries throughout the northern coast. The intense use of love charms has also a negative effect on these populations and should be better evaluated. An awareness program will be implemented as a first step for changing attitude towards the aquatic mammails of the northern coast.
Key words: Aquatic mammals. Conservation. North coast. Brazil.
INTRODUÇÃO sobre os grupos zoológicos integrantes desta fauna
e a própria dificuldade logística de monitoramento
A costa norte do Brasil representa uma nova fronteira resultou numa lacuna de conhecimento até muito para o avanço do conhecimento sobre a fauna de recentemente. Os resultados apresentados traduzem mamíferos aquáticos. A ausência de dados pretéritos | o esforço dos pesquisadores do Grupo de Estudos
! Submetido em 18 de junho de 2007. Aceito em 14 de abril de 2008.
2 Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (GEMAM), Projeto Piatam Oceano. Museu Paraense Emílio Goeldi, Coordenação de Zoologia.
Campus de Pesquisa. Av. Perimetral, 1901, Terra Firme, 66077-530, Belém, PA, Brasil.
* Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (GEMM-Lagos), Departamento de Endemias Samuel Pessoa, Escola Nacional de Saúde Pública/FIOCRUZ. Rua Leopoldo Bulhões, 1480/s.620, Manguinhos, 21041-210, Rio de Janeiro, RJ Brasil. E-mail: sal(Densp.fiocruz.br.
* Projeto Cetáceos do Maranhão/Instituto Ilha do Caju. Av. Presidente Vargas, 235, Centro, 64200-200, Parnaíba, PI, Brasil.
> Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá - IEPA. Centro de Pesquisas Zoobotânicas e Geológicas (CPZG). Rodovia Juscelino Kubitschek Km-10, Fazendinha, 68912-250, Macapá, AP, Brasil.
382 S.SICILIANO et al.
de Mamíferos Aquáticos da Amazônia/Projeto Piatam Oceano, ou GEMAM /PIATAM, e do Projeto Cetáceos do Maranhão /Instituto Ilha do Caju, ou PROCEMA/ICEP.
Devido à falta de tradição em pesquisas sobre cetáceos e sirênios na Amazônia Oriental, os poucos dados disponíveis são pontuais e limitam a tomada de medidas eficazes de conservação e manejo.
O Grupo de Mamíferos Aquáticos do Projeto Piatam Oceano, denominado Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (GEMAM / PIATAM), surgiu para tentar suprir a falta de estudos sobre os mamíferos aquáticos da região norte. As atividades em realização pelo GEMAM / PIATAM, incluem: monitoramento de praias e portos pesqueiros na área de influência da Baia do Marajó com a finalidade de coleta de carcaças de mamíferos aquáticos; qualificação e quantificação das atividades pesqueiras e suas interações com mamíferos aquáticos na Baía do Marajó; estimativas de abundância e densidade relativas de mamíferos aquáticos na Baía do Marajó; avaliação da presença de espécies ameaçadas, especialmente o peixe-boi- marinho (Trichechus manatus) e o peixe-boi-da- Amazônia (T. inunguis). O recolhimento de carcaças foi licenciado pela Superintendência do IBAMA no Pará sob número de registro IBAMA/DIFAP/ SUPES-PA 078/2006 e pela autorização para atividades com finalidade científica do Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade — SISBIO/IBAMA Número 12641-1.
As atividades de campo do GEMAM/PIATAM contam com o apoio técnico do Departamento de Endemias, da Escola Nacional de Saúde Pública/ Fiocruz. Todos os exemplares de mamíferos aquáticos recolhidos em praias são tombados na coleção do Setor de Mastozoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) (Apêndice 1). Um banco de amostras de tecidos em meio líquido vem sendo incorporado à coleção do MPEG.
O Projeto Cetáceos do Maranhão, criado junto ao Instituto Ilha do Caju (PROCEMA/ICEP), tem como objetivo capacitar estudantes de graduação das universidades dos Estados do Maranhão e Piauí, tendo em vista que as pesquisas voltadas para mamíferos aquáticos nestas regiões eram totalmente desconhecidas. As atividades do PROCEMA/ICEP tiveram início e concentraram-se basicamente em pesquisas de caracterização socioambiental, as quais serviriam como subsídio para identificação das áreas chaves no processo de organização das estratégias conservacionistas que o PROCEMA/ICEP pretendia
aplicar. Dentre as atividades previstas no PROCEMA/ICEP, podemos citar: monitoramento de praias na Ilha de São Luís e no Delta do Parnaíba, monitoramento dos principais portos pesqueiros do Maranhão, avistagens em ponto fixo e embarcado, trabalhos de etnoecologia e educação ambiental, estimativa de abundância do boto-cinza (Sotalia guianensis) na Baia de São Marcos, e organização de eventos voltados para a preservação marinha, visando a conscientização das comunidades costeiras. As atividades de campo do PROCEMA/ ICEP contaram com o patrocínio do Programa Petrobras Ambiental. O material coletado encontra- se tombado na coleção zoológica do Instituto Ilha do Caju (CEMA) (Apêndice II).
A seguir tratamos de listar e comentar sobre as 22 espécies nominais de mamíferos aquáticos com ocorrência comprovada na costa norte. As espécies foram relacionadas de acordo com seus grupos taxonômicos naturais e suas características ecológicas de uso do hábitat, a saber:
Pequenos cetáceos costeiros — espécies de pequeno tamanho corporal (menores que 7m), de ocorrência restrita à plataforma continental;
Grandes cetáceos pelágicos — espécies de grande tamanho corporal (maiores que 7m) de ocorrência preferencial em águas oceânicas,
Pequenos cetáceos pelágicos — espécies de pequeno tamanho corporal (menores que 7m) de ocorrência exclusiva em águas oceânicas,
Sirênios — mamíferos aquáticos da Ordem Sirenia; Mustelídeos — mamíferos aquáticos da Ordem Carnivora.
PEQUENOS CETÁCEOS COSTEIROS
>Boto-cinza [(Sotalia guianensis) P. J. Van Bénéden, 1864] e tucuxi |(Sotalia fluviatilis) (Gervais, 1853)]
O boto-cinza (Sotalia guianensis) é o pequeno cetáceo mais representativo dos ambientes marinhos da costa norte do Brasil. O boto-cinza encontra-se distribuído continuamente desde a Ilha das Canárias, no Delta do Parnaíba, divisa entre os Estados do Maranhão e Piauí, até o Oiapoque, na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. S. guianensis ocupa águas da plataforma continental até o limite aproximado da isóbata de S0m. Desse modo, a área potencial de uso é ampliada pela extensa plataforma continental da costa norte, oferecendo ao boto-cinza uma heterogeneidade de ambientes costeiros. Devido aos seus hábitos costeiros, Sotalia é capturado
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 383
acidentalmente em redes de pesca em toda sua área de distribuição no norte do Brasil. Registros de captura acidental do boto-cinza na costa do Pará e Maranhão remontam à década de 1980 e início da década de 1990 (Borosia et al., 1991; Siciiano, 1994). Em anos subsequentes, o monitoramento das capturas acidentais, entretanto, foi pontual na costa do Pará (BeLTRÁN-PEDREROS, 1998), mas indicou um elevado número de exemplares de S. guianensis capturados ao largo das costas do Pará e Amapá.
Apenas recentemente, iniciou-se um esforço de monitoramento costeiro dedicado ao recolhimento de carcaças de cetáceos nos Estados do Pará e Maranhão. Os monitoramentos estão concentrados na costa leste do Marajó, nos municípios de Salvaterra e Soure, Pará, e na Baía de São Marcos e Delta do Parnaíba, Maranhão (SiciLiano et al., 2005; Emin-Lima et al., 2007; GarriI et al., 2005; SantTOS et al., 2006; 2007).
Os exemplares de S. guianensis capturados em redes de pesca são descartados inteiros ou aproveitados para consumo humano (SicrLiano, 1994; MAGALHÃES et al., 2005a; Tosi et al., 2005a; Soares et al., 2006; Garri et al., 2006). A carcaça pode ser retalhada, servindo de isca para a pesca de espinhel (Tosr etal., 2005b), mas também se destina a outros usos, geralmente relacionados à cultura amazônica e seus misticismos, destacando-se o amplo comércio de dentes, genitálias, olhos e nadadeiras dorsais (BoroBia et al., 1991; Siciiano, 1994; Tosr etal., 2005b; GarrI et al., 2005; SHoLL et al., 2006). A prática de arpoamento de botos-cinza para servirem de isca na pesca de cações na Baía do Marajó (BoroBia et al., 1991) e na costa leste do Pará parece ter declinado ou mesmo se extinguido nos últimos anos (GEMAM/PIATAM, dados não publicados). Presume- se que as capturas intencionais de botos-cinza tenham sido banidas a partir da década de 1990, devido ao aumento da fiscalização na região. Por outro lado, observa-se nos mercados populares o comércio de dentes, olhos e genitálias retirados de botos capturados acidentalmente em redes de pesca. Visto ser uma atividade ainda muito presente, esse comércio “tradicional” de peças anatômicas dos botos parece representar uma ameaça potencial de retorno a prática das capturas intencionais.
No Estado do Amapá, foram realizadas avistagens recentes de Sotalia sp., através de plataforma de oportunidade, em diferentes ocasiões no Canal Norte do Rio Amazonas (00º04'26.1"S, 051º12º09.0"W), e na Reserva Biológica do Lago Piratuba (01º22º24.9"N, 050º20'12.8"W). Adicionalmente, um crânio de S.
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guianensis foi coletado na mesma reserva, mas na porção marinha situada próximo à localidade de Sucuriju (01º39'02.4"N, 049º56'59.8'"W). O material osteológico coletado encontra-se depositado no IEPA sob número de tombo “918”. Avistagens de S. fluviatilis ocorreram recentemente no rio Maracá (00º11'0.7"S, 051º44'08.3"W) e no rio Cajari (00º53'24"S, 051º01'12"W). Neste rio, em 22 e 23 de maio de 2007, ocorreram avistagens de grupos de S. fluviatilis no trecho compreendido entre o Porto do Braço (00º36"32.77"S, 052º3'37.04"W) e a foz, no rio Amazonas.
Merece consideração a ocorrência de comunidades residentes de S. guianensis ao longo da costa nordeste do Estado do Pará (Fig.1). A comunidade da Baía de Marapanim foi objeto de estudos de bioacústica, onde AzevEDO & VAN SLUYS (2005) realizaram uma comparação dos assobios de S. guianensis ao longo da sua distribuição no Brasil. Recentemente Emin- Lima (2007) apresentou uma ampla caracterização dos assobios do boto-cinza, comparando-os com aqueles emitidos por uma comunidade de tucuxi, S. fluviatilis, no rio Tapajós, oeste do Pará. Os resultados mostraram uma grande diversidade nos assobios emitidos por ambas as espécies, não sendo possível diferenciá-las através dos parâmetros acústicos. Nesta região, os grupos de boto-cinza observados variaram entre 1 e 60 indivíduos, com uma média de 6,16+7,20 indivíduos (Emin-Lima et al., 2006). Outra comunidade de S. guianensis, residente na Baía do Emboraí, município de Augusto Corrêa, foi estudada por TorrEs & BEASLEY (2003).
PantoJA (2001) analisou a dieta de 23 exemplares de S. guianensis capturados acidentalmente na pesca artesanal da costa paraense e amapaense. Os itens alimentares mais frequentes nos conteúdos estomacais foram: peixe-espada ou guaravilha (Trichiurus lepturus), xarelete (Caranx crysos), pescadinha-gó (Macrodon ancylodon), camarão-rosa (Farfantepenaeus brasiliensis), camarão-branco (Lithopenaeus schimitti), camarão-sete-barbas (Xiphopenaeus kroyeri) e lula (Loligo plei.
Ferrucia (2006) analisou o material osteológico de exemplares de S. guianensis e S. fluviatilis depositados nas coleções do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e do Museu Paraense Emílio Goeldi, provenientes do estuário do rio Amazonas, da Ilha de Marajó e da costa do Amapá. A autora realizou análises osteológica, morfológica e morfométrica das espécies do gênero Sotalia, observando as variações geográficas e levando em consideração possíveis áreas de sobreposição.
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Fig.1- Avistagem de botos-cinza (Sotalia guianensis) na Baia de Marapanim, Pará. Foto: Leiliany Moura, LOBio/UFPA.
>Boto-malhado, costa-quadrada, cabeça-de- balde, boto-vermelho [(Inia geoffrensis (Blainville, 1817)]
Emin-Lima et al. (2007) reportaram a presença regular do boto-vermelho (Inia geoffrensis) na Baia de Marajó. A informação prévia de que o boto-vermelho era encontrado apenas “nas proximidades de Belém” (Best & SiLva, 1989) foi atualizada, observando-se ampliação da área de ocorrência. Os novos dados coligidos pela equipe GEMAM/PIATAM indicaram a presença de 1. geoffrensis em ambientes costeiros com características flúvio-marinhas (Fig.2), onde os indivíduos se encontravam associados a faixas de manguezal intermitente na costa leste da Ilha de Marajó. A figura 3 ilustra as posições das avistagens do boto-malhado na Baía de Marajó, como indicado por Emin-Lima et al. (2007). Recentemente, no Amapá, efetuaram-se registros de avistagens de IT. geoffrensis no rio Maracá (00º11'0.7"S, 051º44'08.3'"W), afluente do rio Amazonas; no Poço dos Botos, em Itaubal do Piririm; e no rio Cassiporé, extremo norte do Estado (03º39'45.7"N, 051º11'43.5'W) (L.H. Paiva, com. pes.; Prefeitura Municipal de Itaubal do Piririm/AP). I. geoffrensis recebe diversas
denominações comuns na costa leste do Marajó, assim como em Abaetetuba, Belém e arredores (Mosqueiro e Baía do Sol). Entre as mais citadas encontram-se: boto-malhado, costa-quadrada e cabeça-de-balde, as quais constituem novas denominações regionais para a espécie na literatura especializada.
>Golfinho-nariz-de-garrafa [(Tursiops truncatus (Montagu, 1821)]
Apesar de tratar-se de espécie comum nas Bacias de Campos, Santos e Pelotas, o golfinho-nariz- de-garrafa (Tursiops truncatus) conta com escassos registros na costa norte. O golfinho- nariz-de-garrafa foi avistado ao largo da foz do Amazonas e na costa do Amapá durante monitoramento conduzido em 2001 para licenciamento de atividade de exploração de petróleo e gás (GEMAM/PIATAM, dados não publicados). Um crânio encontrado em Algodoal, Maracanã, PA, em 22 de janeiro de 2008, confirma a ocorrência de T. truncatus na costa norte. O exemplar está depositado na coleção do Setor de Mastozoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG 39465). Na costa do Pará, os golfinhos deste gênero são conhecidos como “tuninas”.
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pm mimo” =
Fig.2- Avistagem do boto-malhado (Inia geoffrensis) no Rio Paracauari, Soure, Ilha de Marajó, Pará. Foto: Alexandra Costa,
GEMAM /PIATAM.
>Golfinho-de-dentes-rugosos [(Steno bredanensis (G. Cuvier in Lesson, 1828)|]
O golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis) estava assinalado para a costa norte do Brasil por uma avistagem efetuada em julho de 1998 entre São Luís e o Parcel Manoel Luís (J.L.Gasparini, com. pes.). Um crânio recolhido em março de 2007 na Nha do Passeio, Delta do Parnaíba, Maranhão (T.Lima-Junior, PROCEMA/ICEP, dados não publicados) e outro crânio recuperado na Vila de Fortalezinha, em maio de 2007 (MPEG 38741), adicionado de outro proveniente da praia do Mupéua, em janeiro de 2008 (MPEG 39464), ambos em Maracanã, Pará, confirmaram mais três registros de S. bredanensis para a costa norte. Como mencionado anteriormente, os pescadores da costa paraense, especialmente em Algodoal e Fortalezinha, costumam se referir aos golfinhos de maior porte como “tuninas”, o que poderia incluir S. bredanensis.
>Baleia-minke-anã (Balaenoptera acutorostrata Lacépéde, 1804)
MAGALHÃES et al. (2007a) registraram pela primeira
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vez para a costa norte a ocorrência da baleia- minke-anã (Balaenoptera acutorostrata), com base em um encalhe ocorrido na Praia do Ciumal, situada na porção leste da Ilha do Caju, Delta do Parnaíba, Maranhão (CEMA 006). Outro espécime encontrado na Praia da Melancieira, igualmente a leste da Ilha do Caju, adiciona mais encalhe de B. acutorostrata para o Maranhão (CEMA 004). Tratava-se de um neonato, o que poderia indicar uma área de reprodução e cria regular para a espécie na costa maranhense.
(GRANDES CETÁCEOS PELÁGICOS
>Cachalote (Physeter macrocephalus Linnaeus, 1758)
Ramos et al. (2001) listaram o encalhe de um cachalote (Physeter macrocephalus) na localidade de Colares, Pará, em fevereiro de 2000. A ampliação do esforço de monitoramento costeiro nos últimos anos resultou na identificação de cinco outros encalhes de cachalote na costa norte (CEMA 008, 009, 012, 042 & MPEG 38464) (Tosr et al. 2006; GEMAM/PIATAM, dados não publicados) (Fig.4)).
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Ws00"'s o's00"s
1005 1005
Tioos ViDos
y 1º200"5
=. e “a
Fig.4- Cachalote (Physeter macrocephalus) encalhado na praia do Olho D'Água, Ilha de S. Luis, Maranhão, em 2007 (CEMA 042). Foto: Mariana Santos, PROCEMA/ICEP.
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Em adição, MorEIRA et al. (2004) reportaram a da plataforma continental. A tabela 1 lista os avistagem de um grupo composto por três exemplares de P. macrocephalus encalhados na indivíduos na Bacia do Pará/Maranhão, em águas costa norte.
TABELA 1. Registros de mamíferos aquáticos na costa norte do Brasil.
LISTA DE TOMBO DA COLEÇÃO OSTEOLÓGICA DE MAMÍFEROS AQUÁTICOS DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI, PARÁ
TOMBO ESPÉCIE LOCAL
MG 450 Lontra longicaudis Gurupá, PA
MG 671 Pteronura brasiliensis Oriximiná, PA
MG 685 Pteronura brasiliensis Portel, PA
MPEG 1247 Lontra longicaudis Baía do Guajará, PA MPEG 1518 Trichechus inunguis Icoaraci, Belém, PA
MG 4238 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4239 Pteronura brasiliensis -
MG 4240 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4241 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4242 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4244 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4245 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4246 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4249 Pteronura brasiliensis -
MG 4253 Pteronura brasiliensis Jardim Zoológico
MG 4256 Pteronura brasiliensis Jardim Zoológico
MPEG 4635 Trichechus manatus Taperinha, Santarém, PA MPEG 4636 Trichechus inunguis Rio Ayaya
MG 4637 Trichechus inunguis Taperinha, Santarém, PA MPEG 4638 Trichechus inunguis Rio Ayaya
MG 4639 Trichechus inunguis Rio Ayaya, Taperinha, Santarem, PA MPEG 4640 Trichechus inunguis Rio Curuá
MPEG 4641 Trichechus inunguis Lago Grande de Mayairú MG 5602 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA MG 5603 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA MG 5604 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA MG 5605 Pteronura brasiliensis Rio Ituqui
MG 5652 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA MG 6491 Trichechus inunguis Jardim Zoológico
MPEG 6492 Trichechus manatus
MPEG 6493 Trichechus inunguis
MPEG 6494 Trichechus inunguis Jardim Zoológico
MG 6495 Trichechus inunguis
MG 6512 Pteronura brasiliensis T.F. Amapá
Continua...
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388
MG 6513 MG 6514
MG 7239
MPEG 7902 MPEG 07959 MPEG 8796 MPEG 8796 MPEG 8797 MPEG 8845 MPEG 8864 MG 8897 MG 09138 MP 11298 MPEG 11838 MP 12755 MPEG 21372 MPEG 22428 MG 22393 MPEG 22896 MPEG 22894 MPEG 38430 MPEG 38431 MPEG 37818 MPEG 37819 MPEG 37820 MPEG 37815 MPEG 37817 MPEG 37821 MPEG 37822 MPEG 37823 MPEG 38432 MPEG 37824 MPEG 38497 MPEG 38724 MPEG 38433 MPEG 38434 MPEG 38435 MPEG 38436 MPEG 38437 MPEG 38438
Pteronura brasiliensis
Pteronura brasiliensis Lontra longicaudis
Pteronura brasiliensis
Trichechus inunguis
Pteronura brasiliensis Lontra longicaudis Trichechus inunguis Lontra longicaudis Pteronura brasiliensis Trichechus inunguis Trichechus inunguis Trichechus inunguis Trichechus inunguis Pteronura brasiliensis Trichechus inunguis Pteronura brasiliensis Pteronura brasiliensis Lontra longicaudis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Trichechus manatus Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
S.SICILIANO et al.
... continuação
Jardim Zoológico
Água Branca, Estrada BR 156, Km 345, Município de Amapá, AP
Parque do Museu Paraense Emílio Goeldi Rio Trombetas, Oriximiná, PA
Santa Bárbara, Benevides, PA
Jardim Zoológico
Jardim Zoológico
Xingú, Altamira, PA
Parque do Museu Paraense Emílio Goeldi
Rio Guamá, Foz do igarapé Tucunduba, PA Rio Tocantins, Cametá, PA Parque Zoobotânico MPEG
Fazenda Nova California, Rio Araguari, AP
Jardim Zoológico
Baía de Marapanim, Marapanim, PA.
Baía de Marapanim, Marapanim, PA. Fortalezinha, Maracanã, PA.
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Porto dos Pescadores, Salvaterra, I. de Marajó, PA Fortalezinha, Maracanã, PA.
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Araruna, Soure, I. de Marajó, PA. Praia da Princesa, Algodoal, Maracanã, PA. Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia de S. João, Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, 1. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, 1. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, 1. de Marajó, PA.
Continua...
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REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL
MPEG 38439 MPEG 38440 MPEG 38726 MPEG 38441 MPEG 38442 MPEG 38443 MPEG 38444 MPEG 38445 MPEG 38446 MPEG 38447
MPEG 38448
MPEG 38449 MPEG 38450 MPEG 38451 MPEG 38452 MPEG 38453 MPEG 38454 MPEG 38455 MPEG 38456 MPEG 38457 MPEG 38458 MPEG 38459 MPEG 38460 MPEG 38461 MPEG 38462 MPEG 38463 MPEG 38464 MPEG 38465 MPEG 38487 MPEG 38727 MPEG 38466 MPEG 38467 MPEG 38468 MPEG 38469 MPEG 38470 MPEG 38471 MPEG 38472 MPEG 38473 MPEG 38474 MPEG 38475
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia fluviatilis
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis
Sotalia guianensis Sotalia guianensis
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Physeter macrocephalus
Sotalia guianensis
Balaenoptera bonaerensis
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
... continuação
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Ponta do Cururu, Alter do Chão, Santarém, PA. Praia do Araruna, Soure, 1. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Igarapé do Tatu, Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. I. Canela, Bragança, PA.
I. Romana, Curuçã, PA.
Rio Muriá, Curuçá, PA.
Costa do PA-AP.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA.
Continua...
389
390
MPEG 38476 MPEG 38477 MPEG 38478 MPEG 38479 MPEG 38480 MPEG 38481 MPEG 38482 MPEG 38483 MPEG 38496 MPEG 38498 MPEG 38499 MPEG 38728 MPEG 38729 MPEG 38730 MPEG 38731 MPEG 38732 MPEG 38733 MPEG 38734 MPEG 38735 MPEG 38736 MPEG 38737 MPEG 38738 MPEG 38739 MPEG 38740 MPEG 38741 MPEG 38742 MPEG 38743 MPEG 38744 MPEG 38745 MPEG 38746 MPEG 38747 MPEG 38748 MPEG 38749 MPEG 38750 MPEG 38751 MPEG 38752 MPEG 38753 MPEG 38754 MPEG 38755 MPEG 38756 MPEG 38757
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Grampus griseus
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Steno bredanensis
Delphinus delphis
Baleia não identificada
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Inia geoffrensis
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
S.SICILIANO et al.
Continua...
Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande, Marapanim-PA.
Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA. I. de Marajó, PA.
I. de Marajó, PA.
I. de Marajó, PA., la incursão
Praia da Princesa, Algodoal, Maracanã, PA. Praia do Araruna, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia do Crispim, Marapanim, PA.
Praia do Crispim, Marapanim, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. Fazenda Redenção, Monsarás, I. de Marajó Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Coroa do Muriçoca, Baía do Marajó, PA.
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Continua...
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL
MPEG 38758 MPEG 38759 MPEG 38760 MPEG 38761 MPEG 38762 MPEG 38763 MPEG 38764 MPEG 38765 MPEG 38767 MPEG 38768 MPEG 38769 MPEG 38770 MPEG 38771 MPEG 387772 MPEG 38773 MPEG 38774 MPEG 38775 MPEG 38776 MPEG 38777 MPEG 38778 MPEG 38779 MPEG 38780 MPEG 38781 MPEG 38782 MPEG 38783 MPEG 38784 MPEG 38766 MPEG 39440 MPEG 39441 MPEG 39442 MPEG 39443 MPEG 39444 MPEG 39445 MPEG 39446 MPEG 39447 MPEG 39448 MPEG 39449 MPEG 39450 MPEG 39451 MPEG 39452
Sotalia guianensis Inia geoffrensis
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Inia geoffrensis
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
Continua...
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Porto, Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA. Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Crispim, Marapanim, PA. Algodoal, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA Maiandeua, Maracanã, PA
Praia do Marco, Maracanã, PA
lha de Maiandeua, Maracanã, PA
Nha de Maiandeua, Maracanã, PA
Barra Velha, Soure, I. de Marajó, PA
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Continua...
391
392
MPEG 39453 MPEG 39454 MPEG 39455 MPEG 39456 MPEG 39457 MPEG 39458 MPEG 39459 MPEG 39460 MPEG 39461 MPEG 39462 MPEG 39463 MPEG 39464 MPEG 39465 MPEG 39496
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Sotalia guianensis Inia geoffrensis
Sotalia guianensis Sotalia guianensis Steno bredanensis
Tursiops truncatus
Delphinidae não identificado
S.SICILIANO et al.
...continuação
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. Igarapé do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. Algodoal, Maracanã, PA
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Algodoal, Maracanã, PA
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA
LISTA DE TOMBO DA COLEÇÃO OSTEOLÓGICA DE MAMÍFEROS AQUÁTICOS DO INSTITUTO ILHA DO CAJU, MARANHÃO
TOMBO
CEMA 001 CEMA 002 CEMA 003 CEMA 004 CEMA 005 CEMA 006 CEMA 007 CEMA 008 CEMA 009 CEMA 010 CEMA 011 CEMA 012 CEMA 013 CEMA 014 CEMA 015 CEMA 016 CEMA 017 CEMA 018 CEMA 019 CEMA 020 CEMA 021 CEMA 022 CEMA 023 CEMA 024
ESPÉCIE Megaptera novaeangliae Balaenoptera edeni
Balaenoptera edeni
Balaenoptera acutorostrata
Sotalia guianensis
Balaenoptera acutorostrata
Sotalia guianensis Physeter macrocephalus Physeter macrocephalus Physeter macrocephalus Delphinidae
Physeter macrocephalus Sotalia guianensis Feresa attenuata Sotalia guianensis Delphinidae Delphinidae Delphinidae
Physeter macrocephalus Balaenoptera edeni Sotalia guianensis Delphinidae
Physeter macrocephalus
Steno bredanensis
LOCAL
Praia Oceânica, Delta do Parnaíba, MA Praia do Ciumal, Delta do Parnaíba, MA lha das Canárias, Delta do Parnaíba, MA Praia da Melancieira, Delta do Parnaíba, MA Praia do Ciumal, Delta do Parnaíba, MA Praia do Ciumal, Delta do Parnaíba, MA Praia do Mangue Seco, Delta do Parnaíba, MA Praia da Baleia, Apicum açu, MA
Paulino Neves, Barreirinhas, MA
Paulino neves, MA
Hlha do Cajual Pereira, Apicum-açu, MA Praia de Caburé, Barreirinhas, MA
Porto da Raposa, São Luís, MA
Praia do Mangue Seco, Delta do Parnaíba, MA Praia do Caolho, São Luis, MA
Ponta do Mangue, Delta do Parnaíba, MA Ribamar, São Luís, MA
lha do Cajual Pereira, Apicum-açu, MA Barreirinhas, Maranhão
Praia Oceânica, Delta do Parnaíba, MA Praia do Guagirú, Barreirinhas, MA
Praia do Rio Negro, Barreirinhas, MA Barreirinhas, Maranhão
lha do Caju, Delta do Parnaíba, MA
continua...
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 393,
CEMA 025 Sotalia guianensis CEMA 026 Physeter macrocephalus CEMA 027 Sotalia guianensis CEMA 028 Sotalia guianensis CEMA 029 Sotalia guianensis CEMA 030 Sotalia guianensis CEMA 031 Sotalia guianensis CEMA 032 Sotalia guianensis CEMA 033 Delphinidae
CEMA 034 Sotalia guianensis CEMA 035 Physeter macrocephalus CEMA 036 Lagenodelphis hosei CEMA 037 Sotalia guianensis CEMA 038 Sotalia guianensis CEMA 039 Sotalia guianensis CEMA 040 Sotalia guianensis CEMA 041 Sotalia guianensis CEMA 042 Physeter macrocephalus
> Balaenoptera cf. musculus (Linnaeus, 1758)/B. cf. physalus (Linnaeus, 1758)
SICILIANO et al. (2005) assinalaram o encalhe de uma baleia de grandes proporções (Balaenoptera cf. musculus ou B. cf. physalus) na contracosta da Ilha de Marajó no início da década de 1990. Recentemente, moradores de Soure relataram que o encalhe deste exemplar havia acontecido na Ilha do Machadinho, próximo ao Cabo Maguari, Ilha de Marajó. Algumas peças ósseas deste exemplar encontram-se em exposição nos quiosques da Praia do Pesqueiro e no Curtume de Soure.
>Baleia-de-Bryde (Balaenoptera edeni Anderson, 1879)
Pelo menos três encalhes da baleia-de-Bryde (Balaenoptera edeni) são conhecidos para a costa norte. ALMEIDA (1998) reportou um encalhe ocorrido na Praia do Ciumal, na porção leste da Ilha do Caju, Delta do Parnaíba, Maranhão, em 1991 (CEMA 002). MacaLHÃES et al. (2006a) reportaram dois outros registros: um para a Ilha das Canárias, Delta do Parnaíba, Maranhão, em 1996 (CEMA 003), e outro para a Praia Oceânica, Ilha do Caju, em 1999 (CEMA 020). Os registros conhecidos de baleia-de-Bryde na costa norte encontram-se listados na tabela 1.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
... conclusão.
Cedral, MA
Hlha do caju, Delta do Parnaíba, MA Macacoeira, Primeira Cruz, MA Praia Litorânea, São Luís, MA Ribamar, São Luís, MA
Primeira Cruz, MA
Ribamar, São Luís, MA
Paulino Neves, MA
Paulino Neves, MA
Paulino Neves, MA
lha do Passeio, Delta do Parnaíba, MA Caburé, Barreirinhas, MA
Praia Litorânea, São Luís, MA Paulino Neves, MA
Ribamar, São Luís, MA
Praia Litorânea, São Luís, MA
Olho D'Agua, São Luís, MA
Olho D'Agua, São Luís, MA
>Baleia-minke-antártica (Balaenoptera bonaerensis Burmeister, 1867)
O primeiro registro de uma baleia-minke-antártica (Balaenoptera bonaerensis) na costa norte ocorreu em 9 de janeiro de 2007, no rio Muriá, município de Curuçá, Pará. O exemplar adentrou o rio ainda vivo, € após sucessivas tentativas de fazê-lo retornar ao mar, veio a óbito em 15 de janeiro (Fig.5). Tratava-se de um macho adulto de comprimento total de 10,37m. O esqueleto encontra-se depositado na coleção de Mastozoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG 38487).
> Baleia-jubarte (Borowski, 1781)]
[(Megaptera novaeangliae
Um encalhe reportado para a Praia da Pedra do Sal, Piauí (SEVERO et al., 2004) e um esqueleto incompleto recolhido na Praia Oceânica, Ilha do Caju, Maranhão (CEMA 001) (MacaLHÃEs et al. 2005b) representam as únicas evidências recentes da presença da baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) na costa norte. Por outro lado, baleeiros holandeses reportaram avistagens e capturas de baleias-jubarte ao largo da costa norte brasileira nas primeiras décadas do século XX (SLUPER & VAN UTRETCH, 1959).
394 S.SICILIANO et al.
a,
Fig.5- Baleia-minke-antártica (Balaenoptera bonaerensis) encalhada morta em Camará, Marapanim, Pará, em janeiro de
2007. Foto: Renata Emin-Lima, GEMAM/PIATAM.
A tabela 1 lista os encalhes reportados de baleia- jubarte na costa norte.
PEQUENOS CETÁCEOS PELÁGICOS
>Golfinho-de-Risso [(Grampus griseus (G. Cuvier, 1812)]
Um crânio e mandíbula (Fig.6) encontrados nos Lençóis Maranhenses representaram a primeira ocorrência do golfinho-de-Risso (Grampus griseus) para a costa norte (SiciLiano & MOREIRA, 1992). Mais recentemente, em 23 de fevereiro: de 2007, foi registrado um exemplar encalhado vivo na Praia Grande de Marapanim, município de Marapanim, costa paraense (GEMAM /PIATAM, dados não publicados). O exemplar veio a óbito na tarde do mesmo dia (Fig.7). A carcaça foi coletada ainda fresca em 24 de fevereiro, e o material osteológico encontra-se depositado na coleção de Mastozoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG 38480).
>Baleia-piloto-de-peitorais-curtas (Globicephala macrorhynchus Gray, 1846)
A presença da baleia-piloto-de-peitorais-curtas (Globicephala macrorhynchus) na costa norte é conhecida através de registros de avistagem ao largo da costa maranhense (S. Siciliano, obs. pessoal) e na Bacia do Pará/Maranhão (ErBER et al., 2005a). Em adição, Asano FiLHo et al. (2004) listaram o “chati” (Globicephala sp.) na relação das espécies acessíveis as capturas com espinhel pelágico de deriva durante pescarias efetuadas na costa norte entre outubro de 2000 e setembro de 2002.
>Orca-pigméia (Feresa attenuata Gray, 1874)
MacaLHÃES et al. (2006b, 2007) reportaram um crânio de orca-pigméia (Feresa attenuata) recolhido na Praia do Mangue Seco, Ilha do Caju, Maranhão (CEMA 014). Um grupo estimado em 100 orcas- pigméias foi registrado por ERrBER et al. (2005b) em águas da Bacia do Pará/Maranhão.
>“Blackfish” não identificado SICILIANO et al. (2005) relataram o encalhe de um
pequeno “blackfish” na praia do Araruna, Soure, Ilha de Marajó, Pará, em julho de 2005.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 395
Fig.6- Crânio e mandíbulas do golfinho-de-Risso (Grampus griseus) registrado nos Lençóis Maranhenses, em 1991 (Siciliano e Moreira, 1992).
] » | der 4 SAW a
Fig.7- Golfinho-de-Risso (Grampus griseus) encalhado na Praia Grande, município de Marapanim, Pará, em fevereiro de 2007. Foto: GEMAM/PIATAM.
nai
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
396 S.SICILIANO et al.
Pela descrição de pescadores da localidade, poderia tratar-se de uma orca-pigméia (F. attenuata) ou golfinho-cabeça-de-melão (Peponocephala electra). Recentemente, em maio de 2007, um conjunto de vértebras lombares e caudais recolhido na praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA (MPEG